Desde o homicídio de Abel (Gn 4.8) passando pelo período antediluviano (Quando Deus disse que “a terra estava [...] cheia de violência”, Gn 6.11, NVI) até aos dias atuais, infelizmente não é novidade alguma notícias sobre homicídios ou crimes (sem vítima fatal) envolvendo violência física (quem mora em uma cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo, sabe do que estou falando). A violência está tão banalizada, que ocorrências sem maiores implicações, ou seja, sem ter necessariamente um “diferencial” acabam sendo colocadas em uma espécie de “classificados” e, possivelmente, jamais serão conhecidas por um círculo de pessoas que vá além dos familiares e amigos da vítima que, independentemente da “trivialidade criminal” com que teve a perda de um ente querido, gritam de forma anônima e silenciosa, mas não recebem nenhuma atenção midiática.
Algo até mesmo paradoxal e que evidencia outro lado desta injustiça, reforçando ainda mais o desrespeito com a memória das vítimas e familiares, é quando acontece de ser grande o número de vítimas. O que se vê anunciar são apenas as cifras e sua frieza sociológica. Na realidade, não sei o que é pior. Este descaso ou a novela macabra que a mídia cria (quem não se recorda da triste história ocorrida no ano passado com a inocente Isabela Nardoni), fazendo com que as “novas revelações” sobre o caso sejam dadas em “doses homeopáticas”. Isso tudo para que a audiência cativa ajude as emissoras a alcançar os números exigidos pelo Ibope e assim mantenha a pontuação nos picos. Quem ganha com isso? A própria emissora que acaba captando ainda mais anunciantes para os intervalos no horário nobre — leia-se “o mais caro”.
A violência, independente de física ou simbólica, com vítimas fatais ou não, envolvendo tortura física ou psicológica, é um dos exemplos mais claros da selvageria e embrutecimento do ser humano. É intrigante o fato de que ela não está relacionada unicamente à questão da falta de educação, saneamento básico, ou ao fator socioeconômico, pois não foram andarilhos, mendigos ou analfabetos que queimaram, há exatos doze anos, um índio (um autêntico brasileiro, “em quem não há dolo”) que dormia em um banco de um ponto de ônibus em Brasília. Isso sem falar em casos mais recentes, os quais, por alguma razão, não recebem atenção da mídia. Para não ser mal entendido posso seguramente afirmar que não é por causa da educação ou da abastança financeira que crimes assim são cometidos (entretanto, sabe-se que esses fatores podem auxiliar psicologicamente o criminoso — gerando o sentimento de impunidade — ao pensar nos privilégios que sua influência ou poder aquisitivo certamente proporcionarão), mas
apesar deles. São muitos os motivos apresentados para tentar “justificar” o uso da violência, e eles vão da banalidade à justiça (vingança) com as próprias mãos, do despotismo e autoritarismo ao cumprimento de leis insanas (como a da “mordaça” que, aproveitando o clima de feriado e esvaziamento do Congresso Nacional, entrou sorrateiramente na pauta para ser aprovada na última quinta-feira, 30 de abril) que criminalizam toda a população para favorecer uma hegemonia oligárquica. Enfim, é preciso pensar o assunto violência em muitas outras dimensões. Isso significa rejeitar o simplismo malicioso ou o reducionismo obtuso com que a mídia trata determinados assuntos, pois se for seguido o raciocínio que ela colocou (de modo induzido e inferido) por uma questão ocorrida nesta semana, envolvendo violência entre uma empregada doméstica e sua patroa, o futebol deve acabar (o que, sinceramente, não faria nenhuma falta para mim), pois muitas torcidas se digladiam após a partida.
Entretanto, não é porque eu não gosto de futebol que as coisas devem ser vistas ou tratadas assim, antes é preciso usar de ética. A esse respeito gosto de pautar-me pelo que disse Paulo Freire em sua
Pedagogia da Autonomia: “O erro na verdade não é ter um certo ponto de vista, mas absolutizá-lo e desconhecer que, mesmo do acerto de seu ponto de vista é possível que a razão ética nem sempre esteja com ele”.
1 E para que ninguém ache que estou me excluindo desse perigo, alinho-me novamente a Paulo Freire quando afirma que “a transgressão dos princípios éticos é uma possibilidade mas não é uma virtude. Não podemos aceitá-la”.
2Infelizmente não é o que acontece com alguns religiosos (cristãos ou não), torcedores ou afiliados políticos. Sua opinião é sempre
a verdade. O pior é que a maioria que assim procede, são os que realmente não entendem como sua crença, time ou partido predileto, se relacionam com o contexto existente à sua volta. São os que enxergam o mundo através de uma microvisão. Castrados da capacidade de pensar e inaptos cognitivamente, querem fazer com que suas ideologias sejam aceitas acriticamente e desçam “goela abaixo”. Além disso, são exímios plantonistas. Ao menor sinal de erro da parte que lhe convém condenar, aproveitam ao máximo para ostensivamente execrar. Mas sempre de maneira unilateral e estupidamente generalizante. A qualquer vacilo, pensam: “É agora”.
O assunto que motivou este post — “Evangélica tenta colocar fogo em umbandista em Pilares”
A surpresa me veio em tom de aviso: “César, já viu a notícia do
Jornal O Dia sobre a pastora assembleiana que tentou atear fogo em uma umbandista?” Minha primeira reação foi responder com um sonoro “não”. Logo depois, reagi dizendo que não é possível que ela pertença à Assembléia de Deus, pois em minha igreja não há “pastora”. Bem, depois do choque inicial, acessei o site do referido jornal e constatei o que haviam acabado de me informar. Ao ler que a “evangélica agrediu a senhora com um banco de madeira e ainda tentou atear fogo nela”
3, fiquei estarrecido com tamanha brutalidade.
Como é normal em publicações de qualquer matéria jornalística (para prender a atenção), o primeiro parágrafo traz o seguinte: “A umbandista Cirene Dark, 54 anos, cardíaca, foi atacada dentro de sua casa em Pilares, na Zona Norte [do Rio], pela empregada doméstica Nádia Pereira, uma pastora da Assembléia de Deus de Jardim América”.
4Lendo esta informação, qual é o primeiro pensamento que lhe ocorre? Que a confusão foi motivada pela questão religiosa. Como o caso foi denunciado “pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, que reúne membros das diversas religiões no Rio de Janeiro”
5, tudo leva a crer que violência seja fruto de intolerância religiosa. Entretanto, no segundo parágrafo da notícia, aparece a ponderação de que a “família
acredita que a tentativa de agressão tenha sido motivada por uma homenagem que Cirene faria para uma entidade da Umbanda”.
6 Esse “a família acredita” e como se encontra em outro
site, “a família suspeita”
7, indica que os fatos ainda não foram totalmente esclarecidos. Principalmente, quando depois de navegar um pouco mais na grande rede e acessar outras páginas que traziam a notícia, encontrei algumas informações que podem levar a outros desfechos para o caso. Um desses dados, por exemplo, acrescentou que na realidade a confusão foi entre uma patroa e sua empregada. Algo que, devido à quantidade dessas ocorrências em todo o país é, de certa forma, absolutamente “normal” e corriqueiro.
Agora verdade seja dita, sobre quaisquer ângulos que o caso for analisado, a atitude desta pessoa está errada. Seja ela de qual confissão religiosa for, e não importa o motivo pelo qual o seu comportamento foi esse, a violência não se justifica. Entretanto, proponho que seja ouvida a outra parte. Conquanto
nada, repito, absolutamente
nada justifique a atitude dessa pessoa que professa o cristianismo, é preciso saber se a outra não a fustigava por sua crença. É preciso ponderar que o contrário seja verdade, que a intolerância veio primeiramente da outra parte e que, por alguma razão, a dita pastora reagiu de maneira violenta. Claro que alguém pode me acusar de que estou defendendo a “pastora” porque sou cristão evangélico e pentecostal (A estes recomendo a leitura do
post A igreja como negócio). Contudo, diferentemente do que se pensa, indivíduos de outras vertentes religiosas fazem proselitismo e tentam persuadir as pessoas para que passem a pertencer ao seu segmento. Alguns utilizam de sarcasmo e violência simbólica para impor sua ideologia religiosa. Tenho experiências negativas com pessoas de alguns segmentos ditos cristãos e outros de vertente espírita, mas não posso generalizar e dizer que todos os adeptos de tais grupos são assim ou que a instituição incentive tal comportamento (Inclusive, um blog espírita que abordou este mesmo caso demonstra, inicialmente, ter uma opinião equilibrada, muito embora, apresente algumas acusações bastante sérias, as quais, na proporção em que foram apresentadas, sinceramente desconheço.
Veja aqui ). Isso tudo, volto a dizer, não justifica a hostilidade da evangélica. Pois, contraria os princípios mais básicos e elementares do cristianismo (Mt 5.9,10,39-48). Portanto, os cristãos, como um todo, repudiam a atitude desta pessoa, não concordando em hipótese alguma com esse mau comportamento que em nada nos representa.
Defendo que se o crime foi ocasionado por intolerância religiosa, a notícia deve ser anunciada com esse viés. Pela matéria, tudo indica que sim, pois o que a informação que a “agressora é pastora e missionária e teria um programa diário numa rádio pirata em Mesquita chamado ‘Profetizando Vitória’”
8, tem com todo o contexto da notícia? A idéia que a matéria parece querer mostrar, é que a “pastora” é tão religiosa como os demais líderes cristãos que fazem programas em rádios, televisão ou que apenas pregam em suas igrejas. Logo, abram bem os seus olhos, pois essa gente é perigosa! Estupidez e maldade premeditada.
Para que ninguém imagine que padeço da síndrome pós-moderna da “amnésia histórica”, deixo claro que sei que a religião sempre foi uma das armas utilizada como forma de opressão, manipulação e até mesmo de agressão. As cruzadas são um exemplo dessa postura repugnante. A Inquisição ou o Santo Ofício igualmente. Casos envolvendo reformadores como Lutero e Calvino também são notórios e não devem ser esquecidos. Isso para se deter apenas ao cristianismo, sem falar nos problemas modernos envolvendo o islamismo e suas facções.
Agora, se o assunto for mesmo violência, qualquer pessoa que se proponha a investigar a História deparar-se-á com alguns casos que merecem toda a nossa indignação. Basta lembrar-se de Hiroshima e Nagasaki, cidades japonesas que foram atingidas por bombas atômicas em 1945. Casos como esse fizeram com que Einstein, um dos maiores cientistas, se arrependesse de ter descoberto a relação entre massa e energia. Entretanto, não se pode querer acabar com a ciência ou com a pesquisa nuclear por causa da má utilização que muitos fazem do conhecimento. Na realidade o cientista judeu foi acusado de ser responsável pelo horror da bomba atômica, mas como disse o astrofísico Stephen Hawking, “isso é como culpar Newton pelas quedas de aviões, por ter descoberto a gravidade”.
9 Absurdo não é mesmo? Entretanto, volto a dizer, seguindo o raciocínio induzido pela matéria de
O Dia e, pior, pela “enquete” realizada logo abaixo da matéria (para ver enquetes clique
aqui e
aqui e
aqui), é exatamente isso que deve ser feito. Por causa de um ato insano de alguém (o qual, repito, mesmo que não justifique a agressão, é preciso investigar se realmente foi motivado por intolerância religiosa), a reportagem abriu um precedente para que centenas de pessoas opinassem que é preciso banir os cristãos pentecostais de todo o país. Milhões de pessoas sérias e responsáveis que contribuem para o bem da sociedade devem ser punidas por um ou outro ato isolado de pessoas que, na realidade, nem pentecostais são! (Veja manifestações hostis
aqui).
Se se quiser falar sobre violência motivada por intolerância religiosa, o historiador
Isael de Araujo, no
Dicionário do Movimento Pentecostal, relata no verbete “Perseguição” (pp.637-54), dezenas de casos de violência (física e simbólica) contra os pentecostais, ocorridos em nosso país. Talvez assuntos dessa natureza não sejam do interesse da mídia e da sociedade, entretanto, eles aconteceram e estão devidamente documentados. Assim, se a intenção da mídia tupiniquim é informar a sociedade, que faça de maneira correta, ética e sem torcer os fatos. Ela deve procurar, mesmo que não goste dos pentecostais, ser o mais justa possível. Na intenção de informar, e para que as pessoas façam a devida distinção, vou abordar ligeiramente esse assunto.
A distinção que não pode faltar e a nova face do cristianismoO fenômeno vivido pelo cristianismo no Brasil requer que haja novos estudos em torno dos grupos que surgem aos borbotões, pois o conteúdo normativo a que chamamos de doutrina, tem somente uma fonte — a Bíblia Sagrada —, e qualquer prática que pretenda ser cristã deve ser coerente com tudo que Jesus Cristo de Nazaré ensinou. É lamentável que a Bíblia venha sendo tão pessimamente interpretada. Pessoas sem formação e outras sem nenhum escrúpulo acham-se no direito de dar a interpretação que acham mais conveniente para o texto bíblico. Isso não significa que somente um grupo ou elite tenha o direito e dever de estudar a Bíblia, pelo contrário, o livre exame é um direito de todo fiel que valoriza sua posição de seguidor de Cristo (At 17.11).
Falando-se em pentecostalismo no Brasil, dentro de uma abordagem histórica e sociológica, é preciso saber que se falava, até pouco tempo, em três ondas: A primeira onda do movimento pentecostal em nosso país, denominada de
pentecostalismo clássico, surgiu em 1910 com a Congregação Cristã do Brasil e em 1911 com a Assembléia de Deus. Essa “onda” permaneceu sem nenhuma outra igreja até meados de 1950 e início dos anos 60, quando surge a segunda, com o movimento conhecido como
pentecostalismo neoclássico. A terceira aparece no final da década de 70 e ganha impulso nos anos 80, é o chamado
neopentecostalismo.
10É imprescindível saber que o número de igrejas das segunda e terceira ondas é muito grande, e essas denominações se transformaram tanto, que a maioria delas, está hoje totalmente distinta e diferente de quando surgiu. Além disso, muitas denominações dissidentes são fundadas por pessoas que saem dessas igrejas ou mesmo grupos independentes que surgem como que do nada, acabam imitando suas práticas, mas não observam o conteúdo que fundamenta o cristianismo. Assim, surge um segmento esotérico e sincrético que nada tem com o verdadeiro cristianismo (o qual é definido pela Bíblia e não pela minha igreja ou qualquer outra denominação).
Diante desse saber, novas pesquisas revelam que as igrejas pentecostais clássicas estão se aproximando teologicamente das reformadas (sem, contudo, abandonar os dons do Espírito Santo); algumas reformadas estão se renovando ou se “pentecostalizando”; existem neopentecostais que estão mais próximas das pentecostais clássicas; e infelizmente, a grande maioria das neopentecostais não se parece com nenhuma delas (reformadas ou pentecostais clássicas) e estão sendo classificadas como pseudo-pentecostais. E é aqui que a mídia, sociólogos, pesquisadores e historiadores que realmente querem informar, precisam ter ética profissional e agir corretamente, debruçando-se sobre essas novas pesquisas.
Na edição n° 314 da
Revista Ultimato (setembro-outubro/2008), em artigo sob o título “
Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem protestantes”, o bispo anglicano e cientista político, Robinson Cavalcanti, dissertou sobre este assunto, dizendo:
O que se constata, cada vez mais, é que o fenômeno pseudo-pentecostal tem concorrido para uma maior aproximação entre os pentecostais (já tidos como históricos, por sua antigüidade e mobilidade social e cultural) e as igrejas históricas. De um lado, os pentecostais redescobrem o valor da história, de uma confessionalidade e de uma teologia sólida; do outro, os históricos vão flexibilizando (ou ampliando) a sua pneumatologia, reconhecendo a contemporaneidade dos dons do Espírito Santo. O fosso entre pentecostais e pseudo-pentecostais tende a aumentar, não só pela aproximação entre pentecostais e históricos, mas também pela crescente adesão dos pseudo-pentecostais a ensinos e práticas sincréticas, com o catolicismo romano popular e os cultos afro-ameríndios. Quando estudantes de teologia assembleianos, batistas nacionais ou presbiterianos renovados aprendem com teólogos anglicanos (John Stott, J.I. Packer, Michael Greene, Alister McGrath, N.T. Wright), e anglicanos, luteranos ou presbiterianos usam de um louvor mais exuberante e oram por cura e libertação, na expressão de Gramsci, um novo “bloco histórico” vai se formando (retardado pelo extremo fracionamento entre ambos os segmentos), do qual, é claro, não faz parte o pseudo-pentecostalismo.11Falando acerca de pentecostalismo clássico e neopentecostalismo, Robinson Cavalcanti, afirma que um “grande equívoco cometido pelos sociólogos da religião é o de por sob a mesma rubrica de ‘pentecostalismo’ [estes] dois fenômenos distintos”. E na seqüência, afirmou:
De um lado, o pentecostalismo propriamente dito, tipificado, no Brasil, pelas Assembléias de Deus; e do outro, o impropriamente denominado “neopentecostalismo”, melhor tipificado pela Igreja Universal do Reino de Deus. Um estudioso propôs denominar essas últimas de pós-pentecostais: um fenômeno que se seguiu a outro, mas que com ele não se conecta, pois “neo” se refere a uma manifestação nova de algo já existente. Correntes de sociologia argentina já os denominaram de “iso-pentecostalismo”: algo que parece, mas não é. Lucidez e coragem teve Washington Franco, em sua dissertação de mestrado na Universidade Federal de Alagoas, quando classificou o fenômeno representando pela IURD de “pseudo-pentecostalismo”: algo que não é. Um estudo acurado dos tipos ideais, Assembléia de Deus e Igreja Universal do Reino de Deus, sob uma ótica sociológica, ou uma ótica teológica, nos levará à conclusão que se trata de duas manifestações religiosas diversas, que não podem — nem devem — ser colocadas sob uma mesma classificação. Ao se somar, a partir do Censo Religioso, esses dois agrupamentos, tem-se um alto índice de “pentecostais”, constituídos, contudo, pelos que o são e pelos que não o são. Equiparar ambos os fenômenos não faz justiça à Igreja Universal e ofende a Assembléia de Deus.12
Talvez este fato seja novidade para alguns, entretanto, o cientista político chama atenção para um “segundo equívoco dos analistas: considerar a IURD e suas congêneres como ‘evangélicas’”.
13 Segundo ele, essas próprias igrejas, “relutaram em se ver como tal, pretendendo ser tidas como um fenômeno religioso distinto, e terminaram por aceitar a classificação ‘evangélica’ por uma estratégia política de hegemonizar um segmento religioso mais amplo no cenário do Estado e da sociedade civil”.
14 Mas não podem continuar sendo tidas como evangélicas, pois “o evangelicalismo é marcado pela credalidade histórica e pela ênfase doutrinária reformada na doutrina da expiação dos pecados na cruz e na necessidade de conversão, ou novo nascimento”.
15Assim, a conclusão de Robinson Cavalcanti, é que se o “pseudo-pentecostalismo não é pentecostalismo, nem, tampouco, evangelicalismo, também não é protestantismo”, pois o “discurso e a prática dessa expressão religiosa indicam a inexistência de vínculos ou pontos de contatos com a Reforma Protestante do Século 16: as Escrituras, Cristo, a graça, a fé”.
16Na primeira edição da
Revista Ultimato deste ano, Robinson Cavalcanti, assinou um interessante artigo — “
O conteúdo do cristianismo” —, e finalizando este texto, ele faz o seguinte questionamento: “Com o fundamentalismo bitolando, o pseudo-pentecostalismo distorcendo e o liberalismo negando, não estaríamos hoje diante de outras religiões?”
17Neste aspecto alinho-me com ele e questiono: Será que se pode chamar de evangélicos ou pentecostais as novas denominações que surgem a cada dia com práticas exóticas (algumas até esdrúxulas), totalmente irracionais e até irresponsáveis (pois causam psicose ou neurose em seus adeptos)? Ouso ir até mais longe e penso que, como o conteúdo doutrinário (ou sua inexistência) de muitas novas igrejas é totalmente estranho e antagônico à Bíblia Sagrada, não se pode dizer que elas são um segmento do cristianismo, por exemplo, como o catolicismo, o protestantismo ou o evangelicalismo.
Cortando na própria carne: a preocupação do pentecostalismo clássico com a integridade do movimentoSe há textos e pesquisas que apontam para a devida distinção que se deve fazer diante da nova configuração do cristianismo evangélico brasileiro, por outro lado, visando manter a saúde do segmento pentecostal, um grande número de estudiosos pentecostais tem publicado livros, artigos e teses com a preocupação legítima de que o desafio de praticar o pentecostalismo original, bíblico e equilibrado seja mantido. Aliás, a abundante produção de material sobre esta problemática, por um lado evidencia que o fenômeno atingiu tal proporção que já não é mais possível ignorá-lo e, por outro, que existe uma preocupação dos verdadeiros pentecostais em preservar a essência e integridade do movimento, enquanto rechaça e expõe os grupos que inadvertida e inapropriadamente são chamados de “pentecostais”.
Um desses bons exemplos recentes vem do já mencionado historiador
Isael de Araujo, autor de uma grande obra de referência sobre o assunto (
Dicionário do Movimento Pentecostal), que escreveu em julho de 2008, um importante artigo advertindo sobre “
As principais tentações do pentecostalismo hodierno”.
Entre as advertências deste texto, em que o autor disserta acerca do perigo de uma “‘adoração louca’ (no grego
manikos)”, a qual desfigura o verdadeiro pentecostalismo e que, “ao invés de ajudar a converter os pecadores”, muitas vezes desperta “somente o escárnio e o desprezo dos descrentes”, o historiador diz que devemos “nos unir a Paulo em oposição à adoração
manikos” e procurarmos a “‘adoração espiritual’ (no grego,
pneumatikos)”, a qual o “Novo Testamento propõe [pois ela] mantém a posição central e permite a expressão dos dons espirituais dentro da decência e da ordem”.
18 É necessário ver duas excelentes porções deste artigo, a primeira acerca da “adoração
manikos” ou “louca”, onde o historiador, discorrendo sobre excessos dentro do pentecostalismo clássico, diz:
Uma faceta brasileira dessa “adoração louca” são os pretensos cultos pentecostais denominados o meio dito pentecostal com a expressão esdrúxula “reteté” ou “repleplé”. Nos cultos “reteté”, pessoas marcham, pulam, contorcem, caem, riem, berram, ficam rodopiando pra lá e pra cá num verdadeiro reboliço. Geralmente, essa desordenada movimentação se dá enquanto hinos são cantados em ritmos como forró ou axé, com batuques e pandeiros que lembram reuniões de candomblé. Para os crentes do “reteté”, só os seus cultos são verdadeiramente pentecostais e têm o mover de Deus. Mas esses cultos ultrapassam os limites da meninice e muitas vezes são pura expressão de carnalidade e falta de temor a Deus. Seus dirigentes são obreiros neófitos que não estimulam o povo a ler mais a Bíblia e ser mais equilibrados.19O segundo trecho salutar deste artigo aponta para a prevenção contra estes excessos que ameaçam a adoração e o bom senso entre os pentecostais clássicos:
O verdadeiro pentecostalismo se sustém no equilíbrio que tanto os pastores quanto os crentes devem praticar em suas igrejas. Esse equilíbrio pentecostal vem por meio do estudo constante da Bíblia, principalmente dos textos de Atos dos Apóstolos (capítulos 2, 4, 6, 7, 8, 10 e 19), 1Coríntios 12 e 14 e Efésios 5.18. Dessa maneira, teremos crentes pentecostais substancialmente instruídos e alicerçados na Palavra de Deus, pois só com mais ensino bíblico e obediência à Palavra de Deus é que se consegue proteger o pentecostalismo dos descaminhos aos quais é tentado seguir com o passar dos anos. Conseqüentemente, sempre teremos cultos genuinamente pentecostais, onde há exposição bíblica e liberdade para a manifestação do poder de Deus com a salvação de pecadores, batismos no Espírito Santo e a operação dos dons espirituais.20 A preocupação é tão legítima quanto pertinente. O jornal
Mensageiro da Paz do mês passado também trouxe também importante matéria sobre o tema, intitulada
“Deturpações do pentecostalismo se popularizam e preocupam. Especialistas apontam existência de fragmentações do pentecostalismo que comprometem ortodoxia bíblica e a saúde do movimento”. Nesta matéria, os leitores puderam conhecer os perigos do neopentecostalismo, pós-pentecostalismo, deuteropentecostalismo (este não tão nocivo, mas com ênfase errada) e pseudopentecostalismo (este o mais terrível).
A matéria finaliza falando sobre o retrocesso por que passa o atual movimento evangélico brasileiro. Antes, porém, coloca que o “protestantismo pentecostal, desde o seu nascedouro, tem seguido os quatro princípios básicos da Reforma Protestante, que, por sua vez, têm sua base nas Sagradas Escrituras. São eles Sola gratia (só a graça), Sola fide (só a fé), Sola Scriptura (somente as Escrituras) e Sola Deo gloriae (somente a Deus a glória)”.
21Entre as práticas estranhas à Bíblia Sagrada e ao movimento pentecostal clássico, estão o “mercantilismo da fé; [...] a promessa de felicidade, bênçãos e vitória através de uma contribuição financeira mais que generosa; o uso de elementos como galhinho de arruda, sal grosso e copo d’água na liturgia, o que é uma volta ao misticismo medieval; e as teologias da maldição hereditária e da prosperidade, pois são um vilipêndio à doutrina da graça”.
22Assim, a matéria termina com uma reflexão muito séria, afirmando que às portas de completar o seu
centenário é preciso “refletir sobre a importância que a AD [Assembléia de Deus] tem, como maior igreja evangélica do Brasil e maior representante do pentecostalismo”, que é a “de continuar a ser uma referência de ortodoxia bíblica em meio à atual mixórdia doutrinária por que passa o evangelicalismo brasileiro”.
23Acredito que este seja o momento de acabar com o uso indiscriminado do nome “Assembléia de Deus”. Há muito tempo isso me causa preocupação, pois no meu estado de origem, como só há uma Convenção (excetuando parte do sudoeste que pertence à Convenção Catarinense e algumas cidades maiores onde existe a Assembléia de Deus do ministério de Madureira), igrejas com esta nomenclatura, se existem, são muito raras. Sendo a Convenção das Assembléias de Deus no Estado do Paraná ligada à
CGADB (Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil), um caso como esse (da evangélica que agrediu) receberia o devido tratamento que ele requer.
Tudo indica que está aberta a nova temporada de “caça às bruxas”
Não é minha pretensão ser recorrente, entretanto, como disse no post sobre a reportagem do SBT (
A igreja como negócio), não posso ingenuamente aceitar o pressuposto de que o propósito da mídia é o mesmo que o meu e o seu, que nos preocupamos com a desfiguração do movimento pentecostal. Alguém pode objetar e dizer: “Mas não cabe à mídia cuidar disso”. Concordo. Contudo, ela não deve promover uma verdadeira “caça às bruxas”, fazendo com que as pessoas comprem a idéia de que o mundo será melhor sem os evangélicos (isso não me cega os olhos para o reconhecimento que há muita coisa errada sendo feita em nome de Deus ou da religião por aqueles que se auto-intitulam “evangélicos”).
Assim, primeiramente o jornal deveria se informar e saber a qual “Assembléia de Deus” pertence a tal “pastora”. Visto que a Assembléia de Deus, que representa o pentecostalismo clássico, fundada em 1911, não tem “pastoras”, era preciso, se o objetivo é realmente informar, fazer a distinção mostrando este “detalhe”, o que, certamente, faria toda a diferença.
Segundo, se ela for realmente da Assembléia de Deus clássica, com certeza não é pastora e receberá um processo disciplinar pelos seus responsáveis e líderes. Só que, neste caso, o Jornal precisa responder também por ter criado a idéia de que alguém que simplesmente faz um programa de rádio seja “pastora”.
Em terceiro e último lugar, é preciso saber se a violência realmente ocorreu como fruto de intolerância religiosa. Volto a afirmar que, independente de esse ter sido o motivo, essa pessoa está errada e não representa a totalidade do movimento evangélico pentecostal, pois agiu de maneira imprópria, infringindo os princípios mais elementares do cristianismo (Mt 5.9,10,39-48). Já imaginaram se toda vez que um crime acontecesse, e o fato fosse divulgado destacando a crença da pessoa? Quem será que ficaria — institucionalmente ― em desvantagem pública? Claro, se o delito for cometido motivado pela questão religiosa, volto a dizer, ele deve ser divulgado com esse destaque. Mas será que a notícia em questão se enquadra neste caso? Ou seria apenas uma oportunidade de, ardilosa e preconceituosamente, influenciar a opinião pública superestimando o caso? Lamentavelmente, percebe-se que a mídia está à cata de qualquer espécie de situação negativa que envolva os evangélicos.
Se essa não é a verdade, ao menos, a enquete abaixo deixa transparecer exatamente isso:
"Uma agressão por motivação religiosa pode prejudicar a imagem de determinada crença?
Não. O fiel deve responder criminalmente por sua atitude, sem levar em conta a religião
Sim. A instituição religiosa também é responsável pelas atitudes que a usam como justificativa"Apesar de mal construída, a segunda opção sugere que a filosofia religiosa das igrejas pentecostais (quero acreditar que eles estejam se referindo às pseudo-pentecostais e, mesmo assim, desconheço este tipo de incentivo) instilam a idéia de violência para impor sua fé sobre as demais pessoas. Bem isso é muito sério, pois haveria então uma espécie de facção radical ostensiva e violenta, a qual deveria mesmo (como se pode ver na opinião de muitos que comentaram nas enquetes), ir para a cadeia, pois representam uma ameaça à segurança da sociedade. Na realidade, pelo teor hostil de muitos comentários, quem deve buscar proteção das autoridades somos nós, pois muitos ali exteriorizaram um sentimento odioso em relação aos pentecostais. Graças a Deus que todos sabemos que não somos nada disso e que esta não é a verdade.
Conheço pentecostais das classes C, D e E, que são verdadeiros
gentlemen, pois não é a sua condição social que definem sua humanidade, mas o valor que possuem de
per si. Elas não dependem das convenções sociais que supervalorizam o ter em detrimento do ser. Mesmo ciente de que estes são a maioria, também posso garantir que temos pessoas das classes A e B em nosso meio, as quais não aceitariam em hipótese alguma as suspeitas que tal matéria quer suscitar. Conheço, pessoalmente, mais de uma dezena de juízes e promotores pentecostais. Pessoas de bem, justas e íntegras, que nunca coadunariam com a idéia maliciosa proposta na segunda opção da enquete. Aliás, estas pessoas são guardiãs do bem comum e da ordem cívica, sem impor sua religião a ninguém e jamais aceitaria que isso acontecesse em nome das Assembléias de Deus.