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Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

O ATO DE EDUCAR

De um tempo a esta parte, tornou-se comum a utilização da pessoa de Jesus Cristo como o “maior psicólogo”, o “maior administrador”, o “maior líder” e por aí vai. Recentemente, o economista Claudio de Moura Castro, colunista da revista Veja, em artigo sob o título “Educar é contar histórias1, elegeu – ao lado de Walt Disney, Esopo, Monteiro Lobato e J. K. Rowling –, o Filho de Deus como um dos maiores educadores. O fenômeno educativo, processo de transmissão-assimilação ou ensino-aprendizagem, é algo muito complexo para ser discutido em poucas linhas, mas acredito que o início de um diálogo seja importante.



Não precisa ser muito inteligente para imaginar que sendo Jesus Cristo o homem perfeito, se alguém se dispuser a aplicar os seus ensinos e princípios a qualquer área de atividade humana, com certeza chegará à conclusão de que Ele é o maior e melhor modelo dentro dessa área. Entretanto, vejo no texto duas minimizações: uma do ato de educar e outra do conteúdo. O ato de educar não se esgota na utilização de um método, mesmo o de contar histórias que, com toda a sua eficácia, pode sim proporcionar um aprendizado satisfatório. A despeito disso, as injunções de Claudio de Moura Castro fizeram-me refletir, por alguns instantes, acerca do ato de educar.



Por exemplo, mesmo referindo-se a Jesus Cristo, é preciso saber que Ele utilizou uma diversidade de métodos para ensinar. Quando Mateus narra o célebre Sermão da Montanha – que, por sinal não é uma história contada pelo Mestre para ensinar alguma coisa –, é possível inferir que o Filho de Deus ensinava até quando estava de “boca fechada” (Mt 5.2). Isso porque o exemplo de Jesus era ainda mais abundante e inteligível que suas parábolas e metáforas (Jo 3.2). Sua práxis fazia com que seus discípulos, interlocutores e até desafetos tivessem uma atitude de absorção, admiração ou repulsa diante de seus ensinos, mas nunca indiferença.



Dizer que a educação não se reduz ao método, não significa uma negação da importância de ensinar grandes conceitos através de histórias e narrativas fictícias. Reconheço o boom na literatura infanto-juvenil através de J. K. Rowling, e sei que este é o filão do momento. Quem vive no planeta Terra, sabe do sucesso que, desde o ano passado, tem sido A cabana, de Willian P. Yong. E que a Sextante, aproveitando o “momento” e a tendência do mercado, acaba de lançar Por que você não quer mais ir à igreja?, de Wayne Jacobsen e Dave Coleman. As duas ficções são narrativas que abordam a temática da experiência cristã. Em um país como o Brasil, onde os prognósticos dão conta de que em 2020, metade da nação será evangélica, é curioso observar a publicação de duas obras que retratam a trajetória de cristãos decepcionados com algumas práticas da religião institucionalizada. Principalmente se se pensar que a editora que lançou ambas as obras é laica.



Agradeço a Deus que em 2005, quando escrevi O Mundo de Rebeca (lançado em dezembro de 2007), antecipei-me à tendência do mercado brasileiro e, pela bondade do Senhor, percebi a importância de prover os pré-adolescentes e adolescentes, com um material que lhes mostrassem o quanto existe de farsa e ficção naquilo que se ouve no colégio como “ciência”. Custou muita pesquisa e horas e horas de leitura e produção textual. No frio interiorano de meu Estado, quase adquiri uma pneumonia varando madrugadas escrevendo. Mas valeu a pena. Não apenas pelo número de obras vendidas, mas principalmente pela repercussão e influência que a ficção tem alcançado em meio a esse público.



Alinho-me com o articulista na questão de que o método é um importante elemento dentro da educação, pois é através dele que o conteúdo é transmitido. Como disse Dermeval Saviani, o “método é essencial ao processo pedagógico”.2 No caso do trabalho que escrevi, é preciso pensar que o enredo da narrativa é devidamente contextualizado. Evangélicos que lêem o livro sentem-se como parte da história, e tem pessoas que me enviam emails questionando o fato de que existem similaridades incríveis entre a ficção de O Mundo de Rebeca e a sua própria realidade familiar. Em outras palavras, o que não pode acontecer é a assunção de uma postura ingênua que adota “o método pelo método”. Principalmente pelo fato de que, como disse Saviani, é preciso reconhecer que “a questão central da pedagogia é o problema das formas, dos processos, dos métodos”, contudo, não se deve imaginar que eles, de per si, constituam-se como o mais importante em educação, pois tais elementos, “certamente, não [devem ser] considerados em si mesmos, pois as formas só fazem sentido quando viabilizam o domínio de determinados conteúdos”.3






Assim, acreditar que o problema da deficiência da educação no Brasil está apenas na metodologia de ensino, é reduzir o ato de educar ao alcance de objetivos meramente livrescos, mercadológicos e mecânicos, os quais, irrefletidamente levam calouros em pedagogia a reproduzi-los em seus textos e falas sem pensar que a questão é muito mais ampla do que se pensa e não se resolve com “verbalismo oco”.









Claudio de Moura Castro arranha o problema da educação no Brasil quando fala sobre a “pedagogia de astronauta”, mas não faz praticamente nenhuma consideração crítica aos conteúdos. É interessante saber que quando se discute a metodologia, algo ainda mais importante já escapou da discussão: o processo de produção dos saberes. Como a questão extrapola os estritos limites do método, é imprescindível entender que quando se fala em ensinar, é “fundamental que se coloque inicialmente a seguinte pergunta: para que serve ensinar uma disciplina como geografia, história ou português aos alunos concretos [não os idealizados] com os quais vai trabalhar?” 4 A resposta a essa pergunta, para o professor que ainda não percebeu a verdade freireana de que “educar é um ato político”, talvez seja: “Esses conteúdos foram definidos como importantes e constam no currículo”. A estes, a próxima indagação de Saviani talvez torne mais claro o que é crucial entender neste assunto: “Em que essas disciplinas são relevantes para o progresso, para o avanço e para o desenvolvimento desses alunos?”5 Aqui está um dos questionamentos mais urgentes da educação.



Quem define o que se vai ensinar aos alunos? E decide com base em quê? Separam-se os conteúdos aleatoriamente, ou tendo em vista a formação de determinado tipo de ser humano? Paulo Freire é lúcido em sua análise do ato de educar e proporciona uma resposta interessante a esta questão:


Do ponto de vista crítico, é tão impossível negar a natureza política do processo educativo quanto negar o caráter educativo do ato político. Isto não significa, porém, que a natureza política do processo educativo e o caráter educativo do ato político esgotem a compreensão daquele processo e deste ato. Isto significa ser impossível, de um lado, como já salientei, uma educação neutra, que se diga a serviço da humanidade, dos seres humanos em geral; de outro, uma prática política esvaziada de significação educativa. Neste sentido é que todo partido político é sempre educador e, como tal, sua proposta política vai ganhando carne ou não na relação entre os atos de denunciar e de anunciar. Mas é neste sentido também que, tanto no caso do processo educativo quanto no do ato político, uma das questões fundamentais seja a clareza em torno de a favor de quem e do quê, portanto contra quem e contra o quê, fazemos a educação e de a favor de quem e do quê, portanto contra quem e contra o quê desenvolvemos a atividade política. Quanto mais ganhamos esta clareza através da prática, tanto mais percebemos a impossibilidade de separar o inseparável: a educação da política. Entendemos então, facilmente, não ser possível pensar, sequer, a educação, sem que se esteja atento à questão do poder.Não foi, por exemplo – costumo sempre dizer –, a educação burguesa a que criou ou enformou a burguesia, mas a burguesia que, chegando ao poder, teve o poder de sistematizar a sua educação. Os burgueses, antes da tomada do poder, simplesmente não poderiam esperar da aristocracia no poder que pusesse em prática a educação que lhes interessava. A educação burguesa, por outro lado, começou a se constituir, historicamente, muito antes mesmo da tomada de poder pela burguesia. Sua sistematização e generalização é que só foram viáveis com a burguesia como classe dominante e não mais como contestatória. 6

A educação está sempre sendo moldada por uma determinada teoria ou concepção de mundo, homem, natureza e realidade. E estas são fruto da produção de determinado grupo que impõe sua ideologia sobre outros. Isso é verdade tanto para quem quer reproduzir o status quo, quanto para quem quer transformar a realidade. Assim, conforme disserta Saviani, a “apropriação de conceitos e teorias é feita a partir dos interesses, da visão de mundo e da posição que os indivíduos ocupam no quadro”.7 Portanto, antes de se pensar em método, forma ou conteúdo, é preciso entender que até mesmo o “próprio aspecto físico das salas de aula se modifica à medida que a concepção de educação se altera e vice-versa”.8

Essa é a ordem: antes de se pensar em qualquer alteração estrutural ou organizacional, é necessário ir às raízes e aquilatar as concepções exigidas pela nova proposta teórica. Antes de inovar metodologicamente ou querer ser vanguardista na didática, é preciso saber a concepção de mundo e qual o tipo de homem que a educação possui e está querendo formar. Por sua própria condição, a educação é uma ciência utópica que acredita no progresso e avanço, mas não pode iludir-se e perder-se nos escaninhos do pensamento mágico de que tudo se resolverá com modificações engendradas nos efeitos da estrutura e não nas suas concepções. Professores precisam de conscientização acerca de seu trabalho, para compreenderem que ele possui implicações muito mais profundas que saber contar histórias bem elaboradas ou ensinar teorias e conceitos prontos.


No que diz respeito às relações entre fins e meios no processo educacional, é preciso observar ainda o seguinte: se geralmente está a nosso alcance definir novos objetivos para a nossa ação no campo da educação, freqüentemente não está a nosso alcance a escolha dos meios adequados aos novos objetivos. Defrontamo-nos, pois, com o problema de usar meios velhos em função de objetivos novos. Com efeito, educar tendo em vista os objetivos propostos (subsistência, libertação, comunicação e transformação) exigiria instituições educacionais diferentes daquelas que possuímos, com uma organização curricular também diferente. No entanto, não nos é dado criar as novas instituições, independentes das atuais. Nós temos que atuar nas instituições existentes, impulsionando-as dialeticamente na direção de novos objetivos. Do contrário, ficaremos inutilmente sonhando com instituições ideais. Problemas desse tipo fazem com que, a par de uma sólida fundamentação científica, o educador necessite também se aprofundar na linha da reflexão filosófica. É isso que justifica a existência de cursos de educação em nível superior. Com efeito, a passagem de uma educação assistemática (guiada pelo senso comum) para uma educação sistematizada (alçada ao nível da consciência filosófica) é condição indispensável para se desenvolver uma ação pedagógica coerente e eficaz.9

Mais do que reunir-se no início de ano para o planejamento, os professores precisam “‘assumir’ a ingenuidade dos educandos para poder, com eles, superá-la”.10 Isso é extremamente importante e necessário, pois “assumir a ingenuidade dos educandos demanda de nós [educadores] a humildade necessária para assumir também a sua criticidade, superando, com ela, a nossa ingenuidade também”.11 Superar a condição de meros reprodutores dos livros didáticos (mesmo que isso seja feito com uma metodologia eficaz), é um dos maiores avanços que os professores deste país precisam fazer.

NOTAS

1 CASTRO, Claudio de Moura. Artigo: Educar é contar histórias. Revista Veja. Edição: 2116. Ano 42, n°23. São Paulo: Abril, 2009, p.30.
2 SAVIANI, Dermeval. Pedagogia Histórico-Crítica. 8.ed. São Paulo: Autores Associados, 2003, p.75.
3 Ibid.
4 Ibid., pp.74-5.
5 Ibid., p.75.
6 FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler. 18.ed. São Paulo: São Paulo: Cortez, 1987, pp.26-8.
7 Ibid., p.83.
8 Ibid., p.118.
9 SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. 17.ed. São Paulo: Autores Associados, 2007, pp.63-4.
10 FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler. 18.ed. São Paulo: São Paulo: Cortez, 1987, p.31.
11 Ibid.

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

“FAVELA NÃO É PROBLEMA, É SOLUÇÃO”

“Favela não é problema, é solução”
Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba afirma que não devemos excluir as favelas do planejamento urbano.





Jaime Lerner
urbanista, ex-prefeito de Curitiba




Favela integrada com a cidade. Essa é a solução. Claro, isso não soluciona tudo, até porque há novos desafios, como o tráfico de drogas. Mas alguns dos grandes problemas que temos nas favelas - lixo, infraestrutura, empregos e segurança - nós podemos resolver.



O primeiro é o lixo. Quantas pessoas têm morrido soterradas nos morros e em inúmeras favelas no mundo inteiro? Por que as pessoas são obrigadas a jogar tanto lixo perto das próprias casas? Porque o acesso dos caminhões que fazem a coleta não é fácil, já que as favelas estão geralmente em morros ou em fundos de vale. Em 1989, na Prefeitura de Curitiba, criamos um programa que comprava o lixo da favela. O que aconteceu? Em vez de jogar fora, os moradores coletavam o lixo, que era trocado por vale-transporte. Não se tratava de um ato paternalista, já que, se não fizéssemos isso, teríamos de pagar pela coleta de qualquer maneira. Em poucos meses, todas as favelas estavam limpas, e as famílias tinham uma renda a mais. Problema resolvido.


A segunda questão é a infraestrutura: levar água, esgoto e energia. Pelo menos em se tratando de energia e água, a tendência é mexer no terreno. Sempre fui contrário a essa solução porque pode haver deslizamento. Defendo a ideia de levar água e energia através do corrimão das escadarias. Dessa maneira, é possível realizar o abastecimento de água da maneira mais prática para cada casa: pela janela, pelo teto, por onde for mais fácil. Idem em relação à energia elétrica: leva-se a estrutura básica pelo corrimão. E o esgoto nós podemos coletar da mesma maneira, pelo canto das escadarias.

Terceiro problema: como gerar empregos? Zonas francas. Ou seja, quem montasse uma pequena fábrica ou serviço e contratasse moradores locais não pagaria impostos. Assim faríamos com que o tráfico deixasse de ser a única alternativa de boa parte das pessoas. Com isso, aumentam as chances de, pouco a pouco, levar escolas e creches de qualidade até lá. Motivados pelas melhorias em volta, os moradores acabam investindo em reformas nas próprias casas. E aí entra a necessidade de outras soluções: financiar material de construção e dar suporte legal para que as pessoas regularizem a área em que vivem.

A melhora das condições diminui a sensação de "gueto", que torna a coexistência muito difícil porque o seu vizinho acaba virando inimigo. E a atual tendência é justamente criar "guetos" - tanto de gente muito rica quanto de gente muito pobre - cada vez mais afastados da malha urbana. E há vazios urbanos que podem ser perfeitamente ocupados por uma vizinhança diversificada. Uma das coisas de que eu mais gosto na minha cidade, Curitiba, é que 80% da população vive em vizinhanças diversificadas, gente de toda faixa de renda. Não no mesmo prédio, mas próximas. Isso é uma coisa sadia, que acontece nas boas cidades do mundo. Prefiro a favela mais integrada à cidade que o conjunto habitacional muito afastado. O custo de melhorar a qualidade de vida passa a ser menor do que levar a 40 km, 50 km de distância a infra-estrutura para que um conjunto habitacional enorme se estabeleça em uma determinada região metropolitana.
Por outro lado, é preciso conter o avanço das favelas. Para isso devemos oferecer alternativas mais rápidas. Terra acessível, financiamento para construção, autoconstrução. A favela é inevitável no momento em que não há alternativa. O governo tem de oferecer transporte público, saúde e educação de qualidade. Atendidas essas demandas, a tendência é melhorar.
A criatividade começa quando se corta um zero do orçamento. A sustentabilidade, quando se cortam dois zeros. E a qualidade de vida começa quando você é rápido em achar soluções.

Domingo, 31 de Maio de 2009

O DESAFIO DO MARKETING NA IGREJA

O desafio do marketing na igreja
Entrevista com César Moisés Carvalho
Publicado em 15.05.2008


Entrevista concedida, há um ano, ao Instituto Jetro, de Londrina (PR)


Através de nossos entrevistados temos buscado demonstrar que não há uma incompatibilidade estabelecida entre os princípios de gestão do mundo organizacional e as ações da igreja, desde que sejam filtrados pela Palavra de Deus. E entre as diversas vertentes da gestão está o marketing, um dos conceitos mais difíceis de ser trabalhado dentro das organizações cristãs.






Para explorar melhor o assunto e aproximá-lo do dia-a-dia de uma igreja entrevistamos o Pr César Moisés Carvalho que escreveu o livro Marketing para a Escola Dominical publicado pela CPAD. O Pr César é pedagogo, administrador, orientador escolar, escritor, articulista e conferencista. É atualmente professor da FAECAD - Faculdade Evangélica de Ciências e Tecnologia da CGADB — Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Além disso, mantém um BLOG através do qual interage com leitores interessados em escola dominical, educação cristã, criacionismo, evolucionismo e apologética para a família.



Conte-nos um pouco da história do seu livro. O que o motivou a escrever?



César Moisés - Na realidade esta primeira questão está atrelada ao fato corriqueiro de pessoas se fecham em uma “torre de marfim”, compram uma dúzia de livros sobre determinado assunto e depois escrevem uma obra. Não, eu não sou meramente um teorista. A motivação para escrever o livro veio exatamente da minha prática e da constatação de que todos os programas da igreja possuem atenção, divulgação, organização, apoio e cooperação. Apesar de ser importante, a Escola Bíblica Dominical - EBD geralmente é vista apenas como mais uma atividade rotineira e sem expressão. Como já havia trabalhado em outras áreas, pensei em melhorar a freqüência da EBD. Foi aí que, ao analisar o problema, percebi que a falta de alunos (o que chamamos erroneamente de “evasão”), era simplesmente o efeito de uma causa: a falta de qualidade na EBD. Por isso, desenvolvi um sistema de trabalho de divulgação com campanhas de publicidade para o público interno e externo e qualificação total para a equipe da EBD, ou seja, recepcionista, diretoria musical, bibliotecário, tesoureiro etc. Percebi também que era preciso melhorar a qualidade da aula, pois ela é o maior “serviço-produto” da EBD, e, acima de tudo, o professor é o principal responsável pela satisfação das necessidades discentes. Assim, paralelamente, criei um curso de formação e reciclagem para professores de EBD. Como o assunto virou notícia na mídia local e também na mídia evangélica nacional, acabei sendo chamado para falar e fazer parte no Fórum de Desenvolvimento do Sebrae e também em diversos eventos de Educação Cristã. Foi, só então, após um longo tempo de experiência e familiaridade com o assunto, que surgiu a necessidade de colocar no papel todas as idéias, pois a procura por palestras é grande e não era possível ir a tantos locais.









De que forma o senhor entende o marketing? Como o definiria?






César Moisés - Entendo o marketing, antes de tudo, como um sistema de gestão e gerenciamento — uma superestrutura, algo que orienta todo o curso do trabalho —, e não uma ação ou pequenas ações fortuitas e desconexas. Gosto também da clássica definição que reza que marketing é atender necessidades.






Para que a Escola Bíblica precisa dele?






César Moisés - Para reorientar o trabalho de sua equipe a fim de atrair, conquistar e manter sua clientela discente. A experiência tem provado que esse ato já garante uma freqüência exponencialmente maior do que quando se trabalha a esmo.









Poderia nos dar exemplos de que ferramentas são apresentadas no seu livro? Elas podem ser aplicadas em outros ministérios da igreja?






César Moisés - Através de vários diagramas e muitos outros recursos é possível auferir a situação da EBD local. Existe também o Ciclo Organizacional e Administrativo que a partir de quatro esferas de organização (administrativa, física, pedagógica e da equipe), torna a gestão da EBD mais realística. Estes mesmos instrumentos podem, tranqüilamente, ser usados como ferramentas em outras áreas ou ministérios. Mesmo porque, a tônica do livro gira em torno de uma tripla questão fundamental para qualquer organização: o conhecimento do perfil de quem estamos servindo, a excelência do trabalho que está se prestando e qual o papel individual e coletivo enquanto colaborador de uma equipe. Chamo isso de política de qualidade. Vale destacar que não elaborei um trabalho com “fórmulas mágicas” ou de “receitas de bolos”. São princípios que se aplicam em qualquer esfera organizacional, sem, no entanto, deixar de conscientizar as pessoas de que é preciso levar em conta a questão do regionalismo. Vivemos em um país de proporções continentais e, mais do que nunca, precisamos levar a sério a célebre e mais importante pergunta do marketing: “Quem é o nosso cliente?” No caso da EBD precisamos saber quem é o nosso aluno.







Sabemos que o marketing, assim como outras disciplinas administrativas, é fonte de alguns receios por parte da liderança cristã. Que críticas, positivas ou negativas, o senhor tem recebido destes líderes?


César Moisés - Por incrível que pareça, até hoje não recebi nenhuma crítica negativa. Acredito que a razão disso deve-se unicamente ao fato de que, para os que conhecem sobre o assunto, a discussão sobre a utilização de seus princípios é ponto pacífico. Já aqueles que desconhecem o que é marketing (estes são a maioria, e geralmente confundem marketing com uma de suas dimensões que é a promoção), após a leitura, entenderam que, inconscientemente, vez por outra, já o fazem há anos! O livro mostrou que o marketing é bem mais proveitoso quando exercido de maneira planejada, intencional e inteligente. Na verdade, a obra corroborou com o que muitos imaginavam, e até serviu como respaldo e argumento para a implementação do marketing no ministério. A aceitação tem sido tão boa que, no ano passado, a obra recebeu da Asec (Associação de Editores Cristãos) o Prêmio Areté na categoria Educação Cristã, o mais importante da literatura evangélica brasileira. Pela graça de Deus, ele também tem transposto as fronteiras. Recentemente falei sobre o assunto para um grupo de livreiros latino-americanos e eles classificaram o assunto e o livro como “desafiantes”.









O senhor já teve alguma experiência pessoal com Escola Bíblica Dominical?


César Moisés - Acredito que já contemplei esta questão na primeira pergunta, mas, acrescentaria que já servi a EBD em quase todas as suas instâncias. Penso que é justamente este o diferencial de meu livro: ele foi escrito por quem já foi aluno e sabe o que este espera do professor e da EBD, professor de adolescentes, jovens e adultos (sabe que há muito mais diferenças entre esses grupos do que unicamente a faixa etária), e, finalmente, fui superintendente por três vezes em duas realidades muito distintas, na capital e no interior.






Já recebeu algum relato de igrejas que tiveram bons resultados na aplicação das suas sugestões?




César Moisés - De norte a sul e de leste a oeste do país recebo depoimentos através de e-mails, telefonemas, e até pessoalmente. Isso de diversas denominações. Recentemente, ao participar de um evento em São Paulo, após minha primeira palestra, uma pessoa formada em publicidade veio falar comigo. Ela disse ter me ouvido em um Congresso Nacional de EBD, realizado no final do ano passado. Contou-me que resolveu implantar o método de gestão do livro e o resultado tem sido satisfatório. Muita gente amplia conceitos, modifica e adapta algumas idéias, e tem até pessoas que fizeram seus Trabalhos de Conclusão de Curso de Administração e Marketing a partir do livro. Destas experiências surgem muitos novos insight e posturas que, sem sombra de dúvida, otimizam o trabalho. O livro foi o ponto de partida para a percepção de que as coisas podem e devem ser feitas de maneira diferente.







Se algum de nossos leitores quiser mais informações sobre marketing, que livros indicaria?





César Moisés - Além do meu (risos), indico para o contexto eclesiástico, O Marketing a Serviço da Igreja, de George Barna. No âmbito empresarial e das corporações, recomendo Marketing para o Século XXI, de Philip Kotler.







Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o site http://www.institutojetro.com/ e comunicada sua utilização através do e-mail artigos@institutojetro.com

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

MAIS UM GRANDE DESAFIO


MAIS UM GRANDE DESAFIO

Amados, este post é de autoria do pastor Marcos Tuler. Em razão de eu também ser parte da notícia, o referido companheiro pediu-me que o reproduzisse em meu blog.
Caros irmãos, professores de escola dominical, superintendentes e educadores cristãos, companheiros dessa linda jornada. Esta postagem tem por objetivo informar-lhes que desde o dia 14 do mês de maio, tenho assumido a reitoria da Faculdade Evangélica de Ciência e Tecnologia da CGADB (FAECAD). Aprouve ao Senhor nosso Deus, pela instrumentalidade de seus servos, pastor José Wellington Bezerra da Costa (presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus do Brasil e do Dr. Ronaldo Rodrigues de Souza, Diretor Executivo da FUNEC (Fundação Evangélica de Comunicação) colocar-me a frente de tão elevado empreendimento. Tenho como missão precípua, fazer da FAECAD um referencial em termos de educação teológica superior em nosso país.


Informo-lhes também, que em razão das muitas responsabilidades atinentes ao novo cargo, desde a data acima referida, deixei minhas atividades no setor de Educação Cristã aos cuidados do nobre companheiro e também educador, pastor César Moisés Carvalho. Outrossim, esclareço que, pela misericórdia do Senhor, e por consentimento do Diretor da Casa, ainda estarei participando de todos os eventos educacionais da CPAD, tais como congressos, conferências e CAPEDS, além de continuar publicando meus livros e artigos.


Devo tornar claro que minha saída do Setor de Educação Cristã e, consequentemente, da CPAD, se dá em razão de uma promoção funcional por parte da diretoria da Casa e da necessidade de atender aos urgentes desafios da FAECAD.


Conto com suas orações e apoio. Abaixo transcrevo, literalmente, a Circular de posse.

Comunicamos a todos que nesta data, representando o Conselho Curador da Fundação Evangélica de Comunicações - FUNEC, estiveram presentes o Diretor Executivo, irmão Ronaldo Rodrigues de Souza e o Diretor Financeiro Pastor Lourival Machado, quando foi dada posse ao Pastor Marcos Antonio Tuler, como novo Diretor da Faculdade das Assembleias de Deus - FAECAD.
Rio, 14 de maio de 2009.

Ronaldo Rodrigues de Souza
Lourival Machado



Pr. Marcos Tuler
Tel: (21) 3015-1000
9991-9952
e-mail: prof.marcostuler@faecad.com.br

Domingo, 3 de Maio de 2009

PENTECOSTALISMO, PSEUDO-PENTECOSTALISMO, A MÍDIA TUPINIQUIM E A NOVA TEMPORADA DE “CAÇA ÀS BRUXAS”


Desde o homicídio de Abel (Gn 4.8) passando pelo período antediluviano (Quando Deus disse que “a terra estava [...] cheia de violência”, Gn 6.11, NVI) até aos dias atuais, infelizmente não é novidade alguma notícias sobre homicídios ou crimes (sem vítima fatal) envolvendo violência física (quem mora em uma cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo, sabe do que estou falando). A violência está tão banalizada, que ocorrências sem maiores implicações, ou seja, sem ter necessariamente um “diferencial” acabam sendo colocadas em uma espécie de “classificados” e, possivelmente, jamais serão conhecidas por um círculo de pessoas que vá além dos familiares e amigos da vítima que, independentemente da “trivialidade criminal” com que teve a perda de um ente querido, gritam de forma anônima e silenciosa, mas não recebem nenhuma atenção midiática.

Algo até mesmo paradoxal e que evidencia outro lado desta injustiça, reforçando ainda mais o desrespeito com a memória das vítimas e familiares, é quando acontece de ser grande o número de vítimas. O que se vê anunciar são apenas as cifras e sua frieza sociológica. Na realidade, não sei o que é pior. Este descaso ou a novela macabra que a mídia cria (quem não se recorda da triste história ocorrida no ano passado com a inocente Isabela Nardoni), fazendo com que as “novas revelações” sobre o caso sejam dadas em “doses homeopáticas”. Isso tudo para que a audiência cativa ajude as emissoras a alcançar os números exigidos pelo Ibope e assim mantenha a pontuação nos picos. Quem ganha com isso? A própria emissora que acaba captando ainda mais anunciantes para os intervalos no horário nobre — leia-se “o mais caro”.

A violência, independente de física ou simbólica, com vítimas fatais ou não, envolvendo tortura física ou psicológica, é um dos exemplos mais claros da selvageria e embrutecimento do ser humano. É intrigante o fato de que ela não está relacionada unicamente à questão da falta de educação, saneamento básico, ou ao fator socioeconômico, pois não foram andarilhos, mendigos ou analfabetos que queimaram, há exatos doze anos, um índio (um autêntico brasileiro, “em quem não há dolo”) que dormia em um banco de um ponto de ônibus em Brasília. Isso sem falar em casos mais recentes, os quais, por alguma razão, não recebem atenção da mídia. Para não ser mal entendido posso seguramente afirmar que não é por causa da educação ou da abastança financeira que crimes assim são cometidos (entretanto, sabe-se que esses fatores podem auxiliar psicologicamente o criminoso — gerando o sentimento de impunidade — ao pensar nos privilégios que sua influência ou poder aquisitivo certamente proporcionarão), mas apesar deles. São muitos os motivos apresentados para tentar “justificar” o uso da violência, e eles vão da banalidade à justiça (vingança) com as próprias mãos, do despotismo e autoritarismo ao cumprimento de leis insanas (como a da “mordaça” que, aproveitando o clima de feriado e esvaziamento do Congresso Nacional, entrou sorrateiramente na pauta para ser aprovada na última quinta-feira, 30 de abril) que criminalizam toda a população para favorecer uma hegemonia oligárquica. Enfim, é preciso pensar o assunto violência em muitas outras dimensões. Isso significa rejeitar o simplismo malicioso ou o reducionismo obtuso com que a mídia trata determinados assuntos, pois se for seguido o raciocínio que ela colocou (de modo induzido e inferido) por uma questão ocorrida nesta semana, envolvendo violência entre uma empregada doméstica e sua patroa, o futebol deve acabar (o que, sinceramente, não faria nenhuma falta para mim), pois muitas torcidas se digladiam após a partida.

Entretanto, não é porque eu não gosto de futebol que as coisas devem ser vistas ou tratadas assim, antes é preciso usar de ética. A esse respeito gosto de pautar-me pelo que disse Paulo Freire em sua Pedagogia da Autonomia: “O erro na verdade não é ter um certo ponto de vista, mas absolutizá-lo e desconhecer que, mesmo do acerto de seu ponto de vista é possível que a razão ética nem sempre esteja com ele”.1 E para que ninguém ache que estou me excluindo desse perigo, alinho-me novamente a Paulo Freire quando afirma que “a transgressão dos princípios éticos é uma possibilidade mas não é uma virtude. Não podemos aceitá-la”.2

Infelizmente não é o que acontece com alguns religiosos (cristãos ou não), torcedores ou afiliados políticos. Sua opinião é sempre a verdade. O pior é que a maioria que assim procede, são os que realmente não entendem como sua crença, time ou partido predileto, se relacionam com o contexto existente à sua volta. São os que enxergam o mundo através de uma microvisão. Castrados da capacidade de pensar e inaptos cognitivamente, querem fazer com que suas ideologias sejam aceitas acriticamente e desçam “goela abaixo”. Além disso, são exímios plantonistas. Ao menor sinal de erro da parte que lhe convém condenar, aproveitam ao máximo para ostensivamente execrar. Mas sempre de maneira unilateral e estupidamente generalizante. A qualquer vacilo, pensam: “É agora”.


O assunto que motivou este post — “Evangélica tenta colocar fogo em umbandista em Pilares”

A surpresa me veio em tom de aviso: “César, já viu a notícia do Jornal O Dia sobre a pastora assembleiana que tentou atear fogo em uma umbandista?” Minha primeira reação foi responder com um sonoro “não”. Logo depois, reagi dizendo que não é possível que ela pertença à Assembléia de Deus, pois em minha igreja não há “pastora”. Bem, depois do choque inicial, acessei o site do referido jornal e constatei o que haviam acabado de me informar. Ao ler que a “evangélica agrediu a senhora com um banco de madeira e ainda tentou atear fogo nela”3, fiquei estarrecido com tamanha brutalidade.

Como é normal em publicações de qualquer matéria jornalística (para prender a atenção), o primeiro parágrafo traz o seguinte: “A umbandista Cirene Dark, 54 anos, cardíaca, foi atacada dentro de sua casa em Pilares, na Zona Norte [do Rio], pela empregada doméstica Nádia Pereira, uma pastora da Assembléia de Deus de Jardim América”.4

Lendo esta informação, qual é o primeiro pensamento que lhe ocorre? Que a confusão foi motivada pela questão religiosa. Como o caso foi denunciado “pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, que reúne membros das diversas religiões no Rio de Janeiro”5, tudo leva a crer que violência seja fruto de intolerância religiosa. Entretanto, no segundo parágrafo da notícia, aparece a ponderação de que a “família acredita que a tentativa de agressão tenha sido motivada por uma homenagem que Cirene faria para uma entidade da Umbanda”.6 Esse “a família acredita” e como se encontra em outro site, “a família suspeita”7, indica que os fatos ainda não foram totalmente esclarecidos. Principalmente, quando depois de navegar um pouco mais na grande rede e acessar outras páginas que traziam a notícia, encontrei algumas informações que podem levar a outros desfechos para o caso. Um desses dados, por exemplo, acrescentou que na realidade a confusão foi entre uma patroa e sua empregada. Algo que, devido à quantidade dessas ocorrências em todo o país é, de certa forma, absolutamente “normal” e corriqueiro.

Agora verdade seja dita, sobre quaisquer ângulos que o caso for analisado, a atitude desta pessoa está errada. Seja ela de qual confissão religiosa for, e não importa o motivo pelo qual o seu comportamento foi esse, a violência não se justifica. Entretanto, proponho que seja ouvida a outra parte. Conquanto nada, repito, absolutamente nada justifique a atitude dessa pessoa que professa o cristianismo, é preciso saber se a outra não a fustigava por sua crença. É preciso ponderar que o contrário seja verdade, que a intolerância veio primeiramente da outra parte e que, por alguma razão, a dita pastora reagiu de maneira violenta. Claro que alguém pode me acusar de que estou defendendo a “pastora” porque sou cristão evangélico e pentecostal (A estes recomendo a leitura do post A igreja como negócio). Contudo, diferentemente do que se pensa, indivíduos de outras vertentes religiosas fazem proselitismo e tentam persuadir as pessoas para que passem a pertencer ao seu segmento. Alguns utilizam de sarcasmo e violência simbólica para impor sua ideologia religiosa. Tenho experiências negativas com pessoas de alguns segmentos ditos cristãos e outros de vertente espírita, mas não posso generalizar e dizer que todos os adeptos de tais grupos são assim ou que a instituição incentive tal comportamento (Inclusive, um blog espírita que abordou este mesmo caso demonstra, inicialmente, ter uma opinião equilibrada, muito embora, apresente algumas acusações bastante sérias, as quais, na proporção em que foram apresentadas, sinceramente desconheço. Veja aqui ). Isso tudo, volto a dizer, não justifica a hostilidade da evangélica. Pois, contraria os princípios mais básicos e elementares do cristianismo (Mt 5.9,10,39-48). Portanto, os cristãos, como um todo, repudiam a atitude desta pessoa, não concordando em hipótese alguma com esse mau comportamento que em nada nos representa.

Defendo que se o crime foi ocasionado por intolerância religiosa, a notícia deve ser anunciada com esse viés. Pela matéria, tudo indica que sim, pois o que a informação que a “agressora é pastora e missionária e teria um programa diário numa rádio pirata em Mesquita chamado ‘Profetizando Vitória’”8, tem com todo o contexto da notícia? A idéia que a matéria parece querer mostrar, é que a “pastora” é tão religiosa como os demais líderes cristãos que fazem programas em rádios, televisão ou que apenas pregam em suas igrejas. Logo, abram bem os seus olhos, pois essa gente é perigosa! Estupidez e maldade premeditada.

Para que ninguém imagine que padeço da síndrome pós-moderna da “amnésia histórica”, deixo claro que sei que a religião sempre foi uma das armas utilizada como forma de opressão, manipulação e até mesmo de agressão. As cruzadas são um exemplo dessa postura repugnante. A Inquisição ou o Santo Ofício igualmente. Casos envolvendo reformadores como Lutero e Calvino também são notórios e não devem ser esquecidos. Isso para se deter apenas ao cristianismo, sem falar nos problemas modernos envolvendo o islamismo e suas facções.

Agora, se o assunto for mesmo violência, qualquer pessoa que se proponha a investigar a História deparar-se-á com alguns casos que merecem toda a nossa indignação. Basta lembrar-se de Hiroshima e Nagasaki, cidades japonesas que foram atingidas por bombas atômicas em 1945. Casos como esse fizeram com que Einstein, um dos maiores cientistas, se arrependesse de ter descoberto a relação entre massa e energia. Entretanto, não se pode querer acabar com a ciência ou com a pesquisa nuclear por causa da má utilização que muitos fazem do conhecimento. Na realidade o cientista judeu foi acusado de ser responsável pelo horror da bomba atômica, mas como disse o astrofísico Stephen Hawking, “isso é como culpar Newton pelas quedas de aviões, por ter descoberto a gravidade”.9 Absurdo não é mesmo? Entretanto, volto a dizer, seguindo o raciocínio induzido pela matéria de O Dia e, pior, pela “enquete” realizada logo abaixo da matéria (para ver enquetes clique aqui e aqui e aqui), é exatamente isso que deve ser feito. Por causa de um ato insano de alguém (o qual, repito, mesmo que não justifique a agressão, é preciso investigar se realmente foi motivado por intolerância religiosa), a reportagem abriu um precedente para que centenas de pessoas opinassem que é preciso banir os cristãos pentecostais de todo o país. Milhões de pessoas sérias e responsáveis que contribuem para o bem da sociedade devem ser punidas por um ou outro ato isolado de pessoas que, na realidade, nem pentecostais são! (Veja manifestações hostis aqui).

Se se quiser falar sobre violência motivada por intolerância religiosa, o historiador Isael de Araujo, no Dicionário do Movimento Pentecostal, relata no verbete “Perseguição” (pp.637-54), dezenas de casos de violência (física e simbólica) contra os pentecostais, ocorridos em nosso país. Talvez assuntos dessa natureza não sejam do interesse da mídia e da sociedade, entretanto, eles aconteceram e estão devidamente documentados. Assim, se a intenção da mídia tupiniquim é informar a sociedade, que faça de maneira correta, ética e sem torcer os fatos. Ela deve procurar, mesmo que não goste dos pentecostais, ser o mais justa possível. Na intenção de informar, e para que as pessoas façam a devida distinção, vou abordar ligeiramente esse assunto.


A distinção que não pode faltar e a nova face do cristianismo

O fenômeno vivido pelo cristianismo no Brasil requer que haja novos estudos em torno dos grupos que surgem aos borbotões, pois o conteúdo normativo a que chamamos de doutrina, tem somente uma fonte — a Bíblia Sagrada —, e qualquer prática que pretenda ser cristã deve ser coerente com tudo que Jesus Cristo de Nazaré ensinou. É lamentável que a Bíblia venha sendo tão pessimamente interpretada. Pessoas sem formação e outras sem nenhum escrúpulo acham-se no direito de dar a interpretação que acham mais conveniente para o texto bíblico. Isso não significa que somente um grupo ou elite tenha o direito e dever de estudar a Bíblia, pelo contrário, o livre exame é um direito de todo fiel que valoriza sua posição de seguidor de Cristo (At 17.11).

Falando-se em pentecostalismo no Brasil, dentro de uma abordagem histórica e sociológica, é preciso saber que se falava, até pouco tempo, em três ondas: A primeira onda do movimento pentecostal em nosso país, denominada de pentecostalismo clássico, surgiu em 1910 com a Congregação Cristã do Brasil e em 1911 com a Assembléia de Deus. Essa “onda” permaneceu sem nenhuma outra igreja até meados de 1950 e início dos anos 60, quando surge a segunda, com o movimento conhecido como pentecostalismo neoclássico. A terceira aparece no final da década de 70 e ganha impulso nos anos 80, é o chamado neopentecostalismo.10

É imprescindível saber que o número de igrejas das segunda e terceira ondas é muito grande, e essas denominações se transformaram tanto, que a maioria delas, está hoje totalmente distinta e diferente de quando surgiu. Além disso, muitas denominações dissidentes são fundadas por pessoas que saem dessas igrejas ou mesmo grupos independentes que surgem como que do nada, acabam imitando suas práticas, mas não observam o conteúdo que fundamenta o cristianismo. Assim, surge um segmento esotérico e sincrético que nada tem com o verdadeiro cristianismo (o qual é definido pela Bíblia e não pela minha igreja ou qualquer outra denominação).

Diante desse saber, novas pesquisas revelam que as igrejas pentecostais clássicas estão se aproximando teologicamente das reformadas (sem, contudo, abandonar os dons do Espírito Santo); algumas reformadas estão se renovando ou se “pentecostalizando”; existem neopentecostais que estão mais próximas das pentecostais clássicas; e infelizmente, a grande maioria das neopentecostais não se parece com nenhuma delas (reformadas ou pentecostais clássicas) e estão sendo classificadas como pseudo-pentecostais. E é aqui que a mídia, sociólogos, pesquisadores e historiadores que realmente querem informar, precisam ter ética profissional e agir corretamente, debruçando-se sobre essas novas pesquisas.

Na edição n° 314 da Revista Ultimato (setembro-outubro/2008), em artigo sob o título “Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem protestantes”, o bispo anglicano e cientista político, Robinson Cavalcanti, dissertou sobre este assunto, dizendo:

O que se constata, cada vez mais, é que o fenômeno pseudo-pentecostal tem concorrido para uma maior aproximação entre os pentecostais (já tidos como históricos, por sua antigüidade e mobilidade social e cultural) e as igrejas históricas. De um lado, os pentecostais redescobrem o valor da história, de uma confessionalidade e de uma teologia sólida; do outro, os históricos vão flexibilizando (ou ampliando) a sua pneumatologia, reconhecendo a contemporaneidade dos dons do Espírito Santo. O fosso entre pentecostais e pseudo-pentecostais tende a aumentar, não só pela aproximação entre pentecostais e históricos, mas também pela crescente adesão dos pseudo-pentecostais a ensinos e práticas sincréticas, com o catolicismo romano popular e os cultos afro-ameríndios. Quando estudantes de teologia assembleianos, batistas nacionais ou presbiterianos renovados aprendem com teólogos anglicanos (John Stott, J.I. Packer, Michael Greene, Alister McGrath, N.T. Wright), e anglicanos, luteranos ou presbiterianos usam de um louvor mais exuberante e oram por cura e libertação, na expressão de Gramsci, um novo “bloco histórico” vai se formando (retardado pelo extremo fracionamento entre ambos os segmentos), do qual, é claro, não faz parte o pseudo-pentecostalismo.11

Falando acerca de pentecostalismo clássico e neopentecostalismo, Robinson Cavalcanti, afirma que um “grande equívoco cometido pelos sociólogos da religião é o de por sob a mesma rubrica de ‘pentecostalismo’ [estes] dois fenômenos distintos”. E na seqüência, afirmou:

De um lado, o pentecostalismo propriamente dito, tipificado, no Brasil, pelas Assembléias de Deus; e do outro, o impropriamente denominado “neopentecostalismo”, melhor tipificado pela Igreja Universal do Reino de Deus. Um estudioso propôs denominar essas últimas de pós-pentecostais: um fenômeno que se seguiu a outro, mas que com ele não se conecta, pois “neo” se refere a uma manifestação nova de algo já existente. Correntes de sociologia argentina já os denominaram de “iso-pentecostalismo”: algo que parece, mas não é. Lucidez e coragem teve Washington Franco, em sua dissertação de mestrado na Universidade Federal de Alagoas, quando classificou o fenômeno representando pela IURD de “pseudo-pentecostalismo”: algo que não é. Um estudo acurado dos tipos ideais, Assembléia de Deus e Igreja Universal do Reino de Deus, sob uma ótica sociológica, ou uma ótica teológica, nos levará à conclusão que se trata de duas manifestações religiosas diversas, que não podem — nem devem — ser colocadas sob uma mesma classificação. Ao se somar, a partir do Censo Religioso, esses dois agrupamentos, tem-se um alto índice de “pentecostais”, constituídos, contudo, pelos que o são e pelos que não o são. Equiparar ambos os fenômenos não faz justiça à Igreja Universal e ofende a Assembléia de Deus.12

Talvez este fato seja novidade para alguns, entretanto, o cientista político chama atenção para um “segundo equívoco dos analistas: considerar a IURD e suas congêneres como ‘evangélicas’”.13 Segundo ele, essas próprias igrejas, “relutaram em se ver como tal, pretendendo ser tidas como um fenômeno religioso distinto, e terminaram por aceitar a classificação ‘evangélica’ por uma estratégia política de hegemonizar um segmento religioso mais amplo no cenário do Estado e da sociedade civil”.14 Mas não podem continuar sendo tidas como evangélicas, pois “o evangelicalismo é marcado pela credalidade histórica e pela ênfase doutrinária reformada na doutrina da expiação dos pecados na cruz e na necessidade de conversão, ou novo nascimento”.15

Assim, a conclusão de Robinson Cavalcanti, é que se o “pseudo-pentecostalismo não é pentecostalismo, nem, tampouco, evangelicalismo, também não é protestantismo”, pois o “discurso e a prática dessa expressão religiosa indicam a inexistência de vínculos ou pontos de contatos com a Reforma Protestante do Século 16: as Escrituras, Cristo, a graça, a fé”.16

Na primeira edição da Revista Ultimato deste ano, Robinson Cavalcanti, assinou um interessante artigo — “O conteúdo do cristianismo” —, e finalizando este texto, ele faz o seguinte questionamento: “Com o fundamentalismo bitolando, o pseudo-pentecostalismo distorcendo e o liberalismo negando, não estaríamos hoje diante de outras religiões?”17

Neste aspecto alinho-me com ele e questiono: Será que se pode chamar de evangélicos ou pentecostais as novas denominações que surgem a cada dia com práticas exóticas (algumas até esdrúxulas), totalmente irracionais e até irresponsáveis (pois causam psicose ou neurose em seus adeptos)? Ouso ir até mais longe e penso que, como o conteúdo doutrinário (ou sua inexistência) de muitas novas igrejas é totalmente estranho e antagônico à Bíblia Sagrada, não se pode dizer que elas são um segmento do cristianismo, por exemplo, como o catolicismo, o protestantismo ou o evangelicalismo.


Cortando na própria carne: a preocupação do pentecostalismo clássico com a integridade do movimento

Se há textos e pesquisas que apontam para a devida distinção que se deve fazer diante da nova configuração do cristianismo evangélico brasileiro, por outro lado, visando manter a saúde do segmento pentecostal, um grande número de estudiosos pentecostais tem publicado livros, artigos e teses com a preocupação legítima de que o desafio de praticar o pentecostalismo original, bíblico e equilibrado seja mantido. Aliás, a abundante produção de material sobre esta problemática, por um lado evidencia que o fenômeno atingiu tal proporção que já não é mais possível ignorá-lo e, por outro, que existe uma preocupação dos verdadeiros pentecostais em preservar a essência e integridade do movimento, enquanto rechaça e expõe os grupos que inadvertida e inapropriadamente são chamados de “pentecostais”.

Um desses bons exemplos recentes vem do já mencionado historiador Isael de Araujo, autor de uma grande obra de referência sobre o assunto (Dicionário do Movimento Pentecostal), que escreveu em julho de 2008, um importante artigo advertindo sobre “As principais tentações do pentecostalismo hodierno”.

Entre as advertências deste texto, em que o autor disserta acerca do perigo de uma “‘adoração louca’ (no grego manikos)”, a qual desfigura o verdadeiro pentecostalismo e que, “ao invés de ajudar a converter os pecadores”, muitas vezes desperta “somente o escárnio e o desprezo dos descrentes”, o historiador diz que devemos “nos unir a Paulo em oposição à adoração manikos” e procurarmos a “‘adoração espiritual’ (no grego, pneumatikos)”, a qual o “Novo Testamento propõe [pois ela] mantém a posição central e permite a expressão dos dons espirituais dentro da decência e da ordem”.18

É necessário ver duas excelentes porções deste artigo, a primeira acerca da “adoração manikos” ou “louca”, onde o historiador, discorrendo sobre excessos dentro do pentecostalismo clássico, diz:

Uma faceta brasileira dessa “adoração louca” são os pretensos cultos pentecostais denominados o meio dito pentecostal com a expressão esdrúxula “reteté” ou “repleplé”. Nos cultos “reteté”, pessoas marcham, pulam, contorcem, caem, riem, berram, ficam rodopiando pra lá e pra cá num verdadeiro reboliço. Geralmente, essa desordenada movimentação se dá enquanto hinos são cantados em ritmos como forró ou axé, com batuques e pandeiros que lembram reuniões de candomblé. Para os crentes do “reteté”, só os seus cultos são verdadeiramente pentecostais e têm o mover de Deus. Mas esses cultos ultrapassam os limites da meninice e muitas vezes são pura expressão de carnalidade e falta de temor a Deus. Seus dirigentes são obreiros neófitos que não estimulam o povo a ler mais a Bíblia e ser mais equilibrados.19

O segundo trecho salutar deste artigo aponta para a prevenção contra estes excessos que ameaçam a adoração e o bom senso entre os pentecostais clássicos:

O verdadeiro pentecostalismo se sustém no equilíbrio que tanto os pastores quanto os crentes devem praticar em suas igrejas. Esse equilíbrio pentecostal vem por meio do estudo constante da Bíblia, principalmente dos textos de Atos dos Apóstolos (capítulos 2, 4, 6, 7, 8, 10 e 19), 1Coríntios 12 e 14 e Efésios 5.18. Dessa maneira, teremos crentes pentecostais substancialmente instruídos e alicerçados na Palavra de Deus, pois só com mais ensino bíblico e obediência à Palavra de Deus é que se consegue proteger o pentecostalismo dos descaminhos aos quais é tentado seguir com o passar dos anos. Conseqüentemente, sempre teremos cultos genuinamente pentecostais, onde há exposição bíblica e liberdade para a manifestação do poder de Deus com a salvação de pecadores, batismos no Espírito Santo e a operação dos dons espirituais.20

A preocupação é tão legítima quanto pertinente. O jornal Mensageiro da Paz do mês passado também trouxe também importante matéria sobre o tema, intitulada “Deturpações do pentecostalismo se popularizam e preocupam. Especialistas apontam existência de fragmentações do pentecostalismo que comprometem ortodoxia bíblica e a saúde do movimento”. Nesta matéria, os leitores puderam conhecer os perigos do neopentecostalismo, pós-pentecostalismo, deuteropentecostalismo (este não tão nocivo, mas com ênfase errada) e pseudopentecostalismo (este o mais terrível).

A matéria finaliza falando sobre o retrocesso por que passa o atual movimento evangélico brasileiro. Antes, porém, coloca que o “protestantismo pentecostal, desde o seu nascedouro, tem seguido os quatro princípios básicos da Reforma Protestante, que, por sua vez, têm sua base nas Sagradas Escrituras. São eles Sola gratia (só a graça), Sola fide (só a fé), Sola Scriptura (somente as Escrituras) e Sola Deo gloriae (somente a Deus a glória)”.21

Entre as práticas estranhas à Bíblia Sagrada e ao movimento pentecostal clássico, estão o “mercantilismo da fé; [...] a promessa de felicidade, bênçãos e vitória através de uma contribuição financeira mais que generosa; o uso de elementos como galhinho de arruda, sal grosso e copo d’água na liturgia, o que é uma volta ao misticismo medieval; e as teologias da maldição hereditária e da prosperidade, pois são um vilipêndio à doutrina da graça”.22

Assim, a matéria termina com uma reflexão muito séria, afirmando que às portas de completar o seu centenário é preciso “refletir sobre a importância que a AD [Assembléia de Deus] tem, como maior igreja evangélica do Brasil e maior representante do pentecostalismo”, que é a “de continuar a ser uma referência de ortodoxia bíblica em meio à atual mixórdia doutrinária por que passa o evangelicalismo brasileiro”.23

Acredito que este seja o momento de acabar com o uso indiscriminado do nome “Assembléia de Deus”. Há muito tempo isso me causa preocupação, pois no meu estado de origem, como só há uma Convenção (excetuando parte do sudoeste que pertence à Convenção Catarinense e algumas cidades maiores onde existe a Assembléia de Deus do ministério de Madureira), igrejas com esta nomenclatura, se existem, são muito raras. Sendo a Convenção das Assembléias de Deus no Estado do Paraná ligada à CGADB (Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil), um caso como esse (da evangélica que agrediu) receberia o devido tratamento que ele requer.


Tudo indica que está aberta a nova temporada de “caça às bruxas”

Não é minha pretensão ser recorrente, entretanto, como disse no post sobre a reportagem do SBT (A igreja como negócio), não posso ingenuamente aceitar o pressuposto de que o propósito da mídia é o mesmo que o meu e o seu, que nos preocupamos com a desfiguração do movimento pentecostal. Alguém pode objetar e dizer: “Mas não cabe à mídia cuidar disso”. Concordo. Contudo, ela não deve promover uma verdadeira “caça às bruxas”, fazendo com que as pessoas comprem a idéia de que o mundo será melhor sem os evangélicos (isso não me cega os olhos para o reconhecimento que há muita coisa errada sendo feita em nome de Deus ou da religião por aqueles que se auto-intitulam “evangélicos”).

Assim, primeiramente o jornal deveria se informar e saber a qual “Assembléia de Deus” pertence a tal “pastora”. Visto que a Assembléia de Deus, que representa o pentecostalismo clássico, fundada em 1911, não tem “pastoras”, era preciso, se o objetivo é realmente informar, fazer a distinção mostrando este “detalhe”, o que, certamente, faria toda a diferença.

Segundo, se ela for realmente da Assembléia de Deus clássica, com certeza não é pastora e receberá um processo disciplinar pelos seus responsáveis e líderes. Só que, neste caso, o Jornal precisa responder também por ter criado a idéia de que alguém que simplesmente faz um programa de rádio seja “pastora”.

Em terceiro e último lugar, é preciso saber se a violência realmente ocorreu como fruto de intolerância religiosa. Volto a afirmar que, independente de esse ter sido o motivo, essa pessoa está errada e não representa a totalidade do movimento evangélico pentecostal, pois agiu de maneira imprópria, infringindo os princípios mais elementares do cristianismo (Mt 5.9,10,39-48). Já imaginaram se toda vez que um crime acontecesse, e o fato fosse divulgado destacando a crença da pessoa? Quem será que ficaria — institucionalmente ― em desvantagem pública? Claro, se o delito for cometido motivado pela questão religiosa, volto a dizer, ele deve ser divulgado com esse destaque. Mas será que a notícia em questão se enquadra neste caso? Ou seria apenas uma oportunidade de, ardilosa e preconceituosamente, influenciar a opinião pública superestimando o caso? Lamentavelmente, percebe-se que a mídia está à cata de qualquer espécie de situação negativa que envolva os evangélicos.

Se essa não é a verdade, ao menos, a enquete abaixo deixa transparecer exatamente isso:

"Uma agressão por motivação religiosa pode prejudicar a imagem de determinada crença?

Não. O fiel deve responder criminalmente por sua atitude, sem levar em conta a religião
Sim. A instituição religiosa também é responsável pelas atitudes que a usam como justificativa"


Apesar de mal construída, a segunda opção sugere que a filosofia religiosa das igrejas pentecostais (quero acreditar que eles estejam se referindo às pseudo-pentecostais e, mesmo assim, desconheço este tipo de incentivo) instilam a idéia de violência para impor sua fé sobre as demais pessoas. Bem isso é muito sério, pois haveria então uma espécie de facção radical ostensiva e violenta, a qual deveria mesmo (como se pode ver na opinião de muitos que comentaram nas enquetes), ir para a cadeia, pois representam uma ameaça à segurança da sociedade. Na realidade, pelo teor hostil de muitos comentários, quem deve buscar proteção das autoridades somos nós, pois muitos ali exteriorizaram um sentimento odioso em relação aos pentecostais. Graças a Deus que todos sabemos que não somos nada disso e que esta não é a verdade.

Conheço pentecostais das classes C, D e E, que são verdadeiros gentlemen, pois não é a sua condição social que definem sua humanidade, mas o valor que possuem de per si. Elas não dependem das convenções sociais que supervalorizam o ter em detrimento do ser. Mesmo ciente de que estes são a maioria, também posso garantir que temos pessoas das classes A e B em nosso meio, as quais não aceitariam em hipótese alguma as suspeitas que tal matéria quer suscitar. Conheço, pessoalmente, mais de uma dezena de juízes e promotores pentecostais. Pessoas de bem, justas e íntegras, que nunca coadunariam com a idéia maliciosa proposta na segunda opção da enquete. Aliás, estas pessoas são guardiãs do bem comum e da ordem cívica, sem impor sua religião a ninguém e jamais aceitaria que isso acontecesse em nome das Assembléias de Deus.


Finalizando este post, peço aos leitores que fiquem atentos às notícias que pululam pela web, através da televisão, rádio ou mídia impressa, pois os pentecostais estamos sendo eleitos as “bruxas” do século 21 e, portanto, responsáveis pelas mazelas deste país. É lamentável que em pleno terceiro milênio, encontremos tanta intolerância e parcialidade por parte de quem deveria estar promovendo o desenvolvimento humano. A mídia deve entender, como disse Alister McGrath, que “os seres humanos são capazes tanto de violência quanto de excelência moral — e que ambos podem ser provocados por visões de mundo, religiosas ou não. Não se trata de uma constatação confortável, mas nos alerta para as faltas e os perigos de identificar qualquer grupo de pessoas como a fonte da violência e dos males da humanidade. Isso pode ajudar a criar um bode expiatório, mas nunca a fazer avançar a civilização”.24


NOTAS


1 FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. 22.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002, pp.15,16.
2 Ibid., p.19.
3 http://odia.terra.com.br/portal/rio/html/2009/4/evangelica_tenta_colocar_fogo_em_umbandista_em_pilares_9384.html. Acesso em 30 de abril de 2009.
4 Idem.
5 Idem.
6 Idem.
7 http://odia.terra.com.br/portal/conexaoleitor/html/2009/4/leitores_debatem_intolerancia_religiosa_9522.html. Acesso em 30 de abril de 2009.
8 http://odia.terra.com.br/portal/rio/html/2009/4/evangelica_tenta_colocar_fogo_em_umbandista_em_pilares_9384.html. Acesso em 30 de abril de 2009.
9 HAWKING, Stephen. O Universo numa Casca de Noz. 4.ed. São Paulo: ARX, 2001, p.13.
10 FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo Brasileiro in ANTONIAZZI, Alberto. et all. Nem Anjos nem Demônios: Interpretações Sociológicas do Pentecostalismo. 1.ed. Petrópolis: Vozes, 1994, pp.70-1.
11 CAVALCANTI, Robinson. Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem protestantes. Ultimato. Ano XLI, n°314, Ultimato, Viçosa: setembro-outubro de 2008.
12 Ibid.
13 Ibid.
14 Ibid.
15 Ibid.
16 Ibid.
17 CAVALCANTI, Robinson. O conteúdo do cristianismo. Ultimato. Ano XLII, n°316, Ultimato, Viçosa: janeiro-fevereiro de 2009, p.45.
18 ARAUJO, Isael. As principais tentações do pentecostalismo hodierno. Mensageiro da Paz. Ano 78, n°1478, CPAD, Rio de Janeiro: Julho de 2008, p.27.
19 Ibid.
20 Ibid.
21 Mensageiro da Paz. Ano 79, n°1487, CPAD, Rio de Janeiro: Abril de 2009, pp.4,5.
22 Ibid, p.5.
23 Ibid, p.5.
24 MCGRATH, Alister & MCGRATH, Joanna. O Delírio de Dawkins: Uma resposta ao fundamentalismo ateísta de Richard Dawkins. 1.ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2007, p.112.

Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Pela Qualidade na Escola Dominical

Conversa Franca
Por Eveline Ventura

Como teve início o seu envolvimento e trabalho na ED?
Quando ainda criança tinha muita sede da Palavra de Deus. Em 1989 meus pais aceitaram ao Senhor Jesus como Salvador e, neste mesmo ano, entrei pela primeira vez em uma sala de ED. Eu era coroinha, mas fiquei muito satisfeito e então troquei a posição de acólito pela de aluno da ED.
Em 1991, aos 14 anos, decidi-me pelo Senhor Jesus. O primeiro livro de Educação Cristã que li, ainda naquela época, foi o Manual da Escola Dominical, do pastor Antonio Gilberto. Gostei tanto que, por não ter condições de adquirir um exemplar, acabei copiando, à mão, quase a metade do livro. Anos depois, quando conheci o pastor Gilberto pessoalmente, mostrei a ele as anotações que ainda tenho e nos emocionamos juntos.
Durante muito tempo acalentei o sonho de ser professor de ED. Para ter essa chance, além de ler muito, participei de inúmeros eventos ligados ao ensino e fiz cursos teológicos. Algumas vezes até questionava o porquê de não ter uma oportunidade, mas era o Senhor me preparando para não somente ser um professor de ED e superintendente, mas um professor de professores! Hoje louvo a Deus por ter passado pelo “caminho” e não ser apenas um teorista, pois para maturidade e o conhecimento requeridos no ministério de ensino, estas experiências se fizeram imprescindíveis senão decisivas. As pessoas não olham com reservas um pregador jovem, mas um ensinador é diferente, daí o motivo de o Senhor ter permitido que passasse por muitas situações. Ainda hoje, em alguns lugares aonde vou ministrar e não sou conhecido, muitos obreiros se surpreendem quando me vêem, pois é raro ensinadores jovens.
Que contribuição a ED trouxe para a sua vida?
Além do que já destaquei acima - no tocante ao despertamento e preparo ministerial -, ela foi e é fundamental para o constante aperfeiçoamento do meu caráter cristão.
Qual a importância dos líderes apoiarem e se envolverem com a área de ensino na igreja?
Eu diria que neste aspecto residem 90% do êxito ou do fracasso do ministério de ensino. A diferença é notável entre as igrejas que têm apoio da liderança e as que não contam com este respaldo. Por isso, acredito que uma ED qualificada e divulgada unida à motivação e o entusiasmo do ministério em torno do ensino, são fatores decisivos para motivar toda a igreja. Em outros termos, a liderança precisa evidenciar - através da freqüência, ministração, apoio, participação e investimento -, o valor que a ED possui para que a membresia perceba.
Na opinião do irmão quais as características que os líderes e superintendentes de Escola Dominical devem avaliar em um candidato a professor de ED?
O primeiro e mais importante critério é o da convicção da chamada e vocação para o ministério do ensino. E o sinal que autentica e torna isto notório, é o fato de o candidato se mostrar interessado em aprender sempre. Pessoas superespirituais - aquelas que dizem que não precisam estudar porque o “Espírito revelará a verdade a elas” -, e com excesso de autoconfiança - as que acreditam que já estão prontas e que conhecem muito -, não servem para o ministério de ensino, pois não tem humildade e não exercitam sua autocrítica. A Bíblia é clara, se o ministério de determinada pessoa é o do ensino, deve haver dedicação (Rm 12.7b). Por isso, entendo que dedicação não é nenhuma virtude para quem ensina, e sim um pré-requisito!Além disto, o candidato deve conhecer e amar a Bíblia e ser consensual acerca das verdades fundamentais. Em outras palavras, deve ser um crente genuinamente convertido (Mt 18.3), e de intelecto renovado (Rm 12.2), pois só assim estará apto a trabalhar no processo de transformação (Ef 4.12-16).
Em termos didáticos, o que os professores de ED precisam melhorar?
Essa discussão é uma das que se mantém inalterada, pois muitos ainda não se convenceram de que a diversificação de métodos ou a utilização de um recurso, de per si, nada farão se não houver uma procura pelo entendimento de como o ser humano aprende. Para melhorar neste aspecto é preciso ter uma noção de teoria do conhecimento (epistemologia), ou do chamado “fenômeno educativo”. Quando ocorre, efetivamente, o processo ensino-aprendizagem ou transmissão-assimilação? Ele se dá na confluência: professor, conteúdo, recurso, metodologia e educando. Com essa pressuposição, é possível utilizar o perfil do aluno como uma forma de planejarmos a aula e a utilização de métodos e recursos que atendam suas necessidades.
Qual a importância do marketing para a Escola Dominical?
Ouso afirmar que se essa atividade for devidamente entendida e, conseqüentemente, utilizada, pode garantir a freqüência de toda a membresia. Digo isso porque marketing para a ED é um sistema de gestão e não pequenas ações fortuitas que as EDs promovem durante o ano. Ele não é simplesmente uma forma de atrair alunos, mas uma maneira de conquistar e mantê-los, daí o porquê de apresentá-lo como um processo.Em meu livro Marketing para a Escola Dominical, deixo isto bem claro. Pelo fato de o Brasil ser um país de proporções continentais, a obra não é um receituário (Por isso não há “receitas de bolo” nem as absurdas “fórmulas mágicas” prometidas em algumas obras com este cunho), mas um trabalho prospectivo. Não adianta querer 100 alunos a mais na ED se não existe estrutura física que os comporte. É preciso pensar em termos globais, para só então encetar ações propagandistas.
O irmão poderia citar algumas estratégias de marketing que tem funcionado nas EDs que tem visitado pelo Brasil?
A mais comum e eficaz é a implantação do que costumo chamar de política de qualidade. Todas as EDs que formulam um código de comportamento - a chamada superestrutura -, para sua equipe, alcançam excelência em todos os sentidos. Só este fato já garante um percentual de freqüência exponencialmente maior do que quando se trabalha a esmo.
Uma ação que também tem rendido frutos é colocar uma urna de sugestões em um lugar estratégico e deixar que as pessoas, anonimamente, opinem, sugiram e critiquem a ED. Quem faz isso consegue aumentar consideravelmente o número de alunos, pois ouve da própria “clientela” discente o que ela pensa acerca da ED local e assim tem possibilidade de melhorar. Essas duas ações provocam a divulgação “boca-a-boca” - a melhor forma de alavancar a ED.
Quais os principais desafios enfrentados pelo professor de ED ao ensinar os adolescentes? Quais as características do professor dessa faixa etária?
O maior deles é fazê-los entender que a Bíblia é a verdade absoluta - infinitamente superior aos livros que eles estudam - e “porque” e “para que” isso é tão importante. Este ato, por si, impõe um estilo de vida diametralmente oposto ao que eles estão vendo na mídia, além de fornecer ferramentas para defenderem sua fé. Esta tarefa não é impossível, mas reivindica estudo constante da Palavra e também de obras de reconhecida confiança que possam auxiliá-lo. Demanda ainda a busca incansável por atualização e sintonia com as novas tecnologias, com o que surge no campo da ciência em termos de teorias e novas descobertas, sabendo reconhecer os benefícios e as intenções que existem por trás de cada novidade. É exatamente este quadro que mostro na ficção O Mundo de Rebeca, meu mais novo livro.
Um outro desafio é conseguir envolver toda a família no processo de educação cristã, pois, por incrível que pareça, se ela não estiver preparada, acaba desconstruíndo o trabalho do educador. Há uns três anos ministrei por seis meses aos adolescentes. Um dia fui procurado por uma mãe que reclamou que o seu filho estava muito questionador acerca das coisas da Bíblia e ela não tinha respostas. Muitos acham mais fácil desestimular o filho, do que buscar conhecimento e somar forças com o professor. Eles acham que ED é um lugar para seus filhos escutarem “historinhas” da Bíblia; parecem desconhecer o amadurecimento precoce desta geração. Penso que as três características mais requeridas para alguém que leciona para os teens são: criatividade, pesquisa e sensibilidade. Dessa forma, o professor terá o que eles buscam: aula dinâmica, conteúdo relevante e alguém que os compreendam.
Na 12ª Conferência de ED, realizada em Cacoal, o senhor ministrou sobre Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. O irmão tem observado esse transtorno nas salas de aula de ED no Brasil? Explique melhor o que é TDAH e como os professores podem detectar essa síndrome em seus alunos?
Infelizmente sim. A dificuldade maior - como em quase tudo na vida - é o desconhecimento acerca do assunto.
Primeiramente precisamos entender que essa síndrome, não é uma doença, mas um transtorno neurobiológico no sistema de “gerenciamento da mente”, e se mostra nas experiências diárias, afetando o comportamento, ou seja, o portador não consegue executar algumas tarefas, mas desempenha normalmente muitas outras. Uma outra questão importante é saber que esse transtorno não é “exclusivamente” infanto-juvenil, pois muitos adultos também são portadores.Quanto ao diagnóstico, ele deve partir de um médico especializado que, após uma longa conversa com a pessoa, saiba distinguir o TDAH de outros transtornos. O que os professores podem fazer é manterem-se atentos ao comportamento do aluno, observando e comparando, em muitas ocasiões, o modo como ele age. No caso dos professores infanto-juvenis, é prudente que conversem com os pais, e oriente-os a buscar um especialista.
Quais são os principais desafios que a ED enfrenta? Por que muitos crentes ainda não a freqüentam?
O principal desafio é manter-se relevante, pois para ser o contrário basta não fazer nada e se conformar.
Eu diria que o fenômeno da infreqüência é algo cultural. Existe a questão da suposta dicotomia entre poder e reflexão (não sei o que estas pessoas fazem com Mt 22.29), aquela idéia de que quem pensa e usa o intelecto não é espiritual. A conclusão é que não devemos estudar para não nos tornarmos espiritualmente frios.
Por outro lado, existe o equívoco com que a ED foi tratada por muitos anos. Naquela época para ser professor bastava ser crente (não havia a necessidade de se conhecer a Bíblia, ser vocacionado ao ensino, ler livros). A ED ficou desacreditada, pois não havia qualidade nas aulas, o ensino era homogêneo (aquele que considera todos iguais e não respeita as individualidades cognitivas), meramente informativo e supervalorizava questões periféricas perdendo tempo com questiúnculas que beiram o absurdo. Aqui entra a importância do marketing para a ED como uma forma de mudança dessa mentalidade, ao anunciá-la com uma nova configuração.
Como a ED deve atuar para enfrentar os conceitos da pós-modernidade e cativar novos alunos?
É preciso buscar pleno entendimento do universo de fatores que afetam sociologicamente a igreja, pois conhecendo o homem do século 21 e o espaço-tempo em que estamos inseridos, certamente haverá a percepção dos novos paradigmas e de quais mudanças, à luz da cosmovisão cristã, precisam ocorrer e ser implementadas na ED para conquistar novos alunos. Para isso, é preciso considerar a época - altamente pragmática - em que vivemos, a utilidade e relevância do conhecimento bíblico como uma contracultura em meio à pós-modernidade e a qualificação da ED através de uma gestão inteligente. Assim, ela não cai na rotina e se mostra sempre relevante e atrativa.

Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

A IGREJA COMO NEGÓCIO

Desde a última quarta-feira, o telejornal SBT Brasil está apresentando uma série de reportagens intitulada: “Fé sob medida”. A matéria foi aberta com a seguinte premissa (não inferida, mas afirmada pelo apresentador): “Uma das atividades mais lucrativas do país nos últimos anos é abrir uma igreja”. Com a proliferação de “ministérios” que surgem aos borbotões, este é um dos assuntos mais urgentes para se debater. Mesmo porque, do cristianismo, o segmento evangélico é o que mais dá margem para grandes “furos jornalísticos”. Se se quiser delimitar ainda mais o fenômeno a ser pesquisado, é preciso afirmar que dentre os evangélicos, o neopentecostalismo — mesmo não sendo o único, é bom que se diga — é o grande campeão e responsável pela suspeição que paira sobre o segmento (aliás, todas as igrejas mostradas até ontem, sem exceção, eram neopentecostais).



Não sou a palmatória do mundo para julgar a “boa vontade” ou a “boa intenção” com que as pessoas buscam estes grupos religiosos (quanto aos líderes acredito que a motivação não seja nada ingênua), mas diante de meu inevitável envolvimento (ora, sou cristão e pastor pentecostal), é meu direito — e dever — refletir sobre o assunto e apresentar algumas ponderações.

Generalização e influência no imaginário coletivo

Como não acredito na hipótese positivista da neutralidade ideológica (até mesmo de minha parte), e ciente da verdade que disse Millôr Fernandes ─ “A opinião pública é o que a mídia publica” ─, arrisco-me a fazer uma leitura acerca das reais intenções da série de reportagens.



Primeiramente, como parte do movimento evangélico (por sua origem histórica, gosto mais da expressão “evangelical”, mas como é muito pouco difundida, vou utilizar o título mais comum), teço algumas críticas ao nosso sistema, mas não sofro da síndrome de Elias — acreditando que sou o único que não se conforma com o quadro atual do segmento evangélico —, achando-me “guardião solitário” das verdades escriturísticas, pois sei que existem muito mais que sete mil anônimos que não se conformam com o evangelho da acomodação ou das facilidades que hoje se prega e, são estes que fazem, de fato, a obra de Deus. Acontece que as críticas que faço (é bom lembrar que “crítica” não deve ser confundida com a postura ranzinza de alguns ou com o mau costume de difamar e/ou falar mal de outros), têm a intenção de fazer-me repensar o cristianismo e descobrir meios de manter-me na direção correta. A série de reportagens também identifica as incoerências e ambigüidades dos evangélicos, mas não posso ser tão incauto e cair no simplismo de que o seu objetivo seja bom. Em outras palavras, o propósito da matéria não se confunde com o meu. Muitos caem na besteira de acreditar que o cristianismo está tão degradante que até mesmo a mídia está sendo “usada por Deus” para bradar contra ele. Na verdade, reportagens deste tipo são um verdadeiro “cavalo de Tróia” que, valendo-se da vulnerabilidade do movimento evangélico, valem-se desses desvios para impingir sobre todo líder cristão a pecha de “aproveitador” da boa fé das pessoas.



Em segundo lugar, é bom não esquecer que toda espécie de generalização é estúpida. O que dizer de pastores que se desdobram e dividem o seu tempo entre liderar uma igreja no período noturno e finais de semana, tendo que trabalhar durante o dia para sustentar sua família? Sem ganhar um único centavo dedicam suas vidas à pregação do evangelho. Mesmo sendo ministros leigos, como bons comissionados, insistem em realizar o trabalho evangelístico, proporcionando uma série de benefícios que refletem-se até mesmo na desintoxicação da sociedade. A reportagem não se propõe a mostrar exemplos de altruísmo, mas procura influenciar a opinião pública, nivelando por baixo, todos os evangélicos.



Em terceiro lugar, é bom não esquecer que eles jamais procuram um líder que saiba realmente responder pelo movimento evangélico, mas indagam pessoas que dão respostas rasas e sem nenhuma profundidade teológica. Um exemplo foi quando o repórter indagou um líder, questionando o motivo da abertura de tantas igrejas. O pastor, de maneira acrítica, respondeu: “O crescimento do bem tende a ser proporcional ao aumento do mal”. Estes são os que acreditam que existem dois deuses (um do bem e outro do mal) competindo entre si. No entanto, todos sabemos que o Diabo é um anjo caído, uma criatura de Deus, não podendo sequer pensar em competir com o Eterno. Sem falar também que a simples abertura de igrejas não significa, em última análise, melhoramento social e avanço do bem.



Em quarto e último lugar, os repórteres sempre buscam o parecer de um sociólogo, psicólogo, ou qualquer outro cético (isto não significa neutro, mas inclinado a criticar tudo o que diz respeito a religião), no intuito de execrar o cristianismo. Se acaso eles procurassem um líder cristão sério, ele concordaria que muitas manifestações religiosas nada têm de Deus; que a religião sempre foi um dos expedientes utilizado como forma de dominação (e acerca deste tipo de "religião" concordo com a definição de Marx); que a função das igrejas não é proporcionar uma vida nababesca aos seus líderes em detrimento dos fiéis que doam tudo que possuem esperando receber de Deus a mesma condição social; que as pessoas não podem ser vistas como “nichos” mercadológicos ou um mercado alternativo oportunizando a abertura de igrejas ao sabor de determinados grupos sociais simplesmente para atender a “demanda”; e finalmente, que neste caso, em particular, não se pode avaliar o todo por uma parte ou vice-versa. Porque isto é estupidez, desonestidade, absurdo e jornalismo antiético.




Analisando a liderança e a práxis cristã à luz da teologia joanina

Diante da banalização e barateação do sagrado, acredito que é importante refletir a práxis cristã na perspectiva teológica joanina. Considero de extrema relevância as advertências do apóstolo João acerca dos “anticristos” e falsos profetas (1 Jo 2.18; 4.1). Qualquer líder cristão sabe que um dos aspectos mais importantes do seu trabalho, é justamente tornar os membros da comunidade de fé que estão sob seu pastorado, capazes de “permanecer [no ensino ou conteúdo doutrinário] que desde o princípio” ouviram, pois se eles assim procederem, o resultado é que também permanecerão no “Filho e no Pai” (1 Jo 2.24). E estando em Deus e em Jesus, eles receberão a maior de todas as promessas do Senhor: “a vida eterna” (1 Jo 2.25).

O apóstolo do amor deixa claro o porquê de reafirmar essa verdade escriturística e mostra-se sabedor de que os crentes conhecem A Verdade (isto é, Jesus): “Não vos escrevi porque não soubésseis a verdade, mas porque a sabeis, e porque nenhuma mentira vem da verdade” (1 Jo 2.21). O objetivo do contraste joanino é bastante evidente: “Estas coisas vos escrevi acerca dos que vos enganam” (1 Jo 2.26). Depreende-se que o ensino deve ser mantido não porque as pessoas não sabem, e sim apesar de elas saberem. Com esta advertência, João informa-nos que o perigo do mau ensino ronda até mesmo as igrejas comprometidas com a Palavra de Deus. Entretanto, ele nos oferece duas formas de identificar os enganadores: pelo conteúdo do que ensinam e pela vida que levam. Cientes de que não é possível que mentiras (conteúdo pernicioso) procedam da Verdade, João ensina ainda que, se somos sabedores de que o Senhor é Justo, tenhamos certeza de que “aquele que pratica a justiça é nascido dele” (1 Jo 2.29). O que pensar do contrário? Da disparidade, incoerência e dicotomia entre discurso e ação?

Isso deve soar como alerta para os cristãos. Não se pode avaliar uma pessoa, que se diz usada por Deus, simplesmente pelas supostas manifestações espirituais que ela demonstra publicamente ou realizações miraculosas que, em nome de Deus, ostenta. O que verdadeiramente a qualifica como serva de Deus são a coerência e simetria entre o que ela crê e vivencia, à luz da verdade bíblica. Assim, a postura bereana (At 17.11) é, para os dias atuais, não apenas prudente como compulsória e inadiável.

O apóstolo João entrecorta o ensino do amor cristão com a crença na encarnação do Filho de Deus. Ele parece equiparar ambas as doutrinas tornando-as fundamentais como padrão de aferir o caráter do verdadeiro cristão e profeta. E João procede dessa maneira, até mesmo porque não é possível ser profeta sem antes ser crente! Ou seja, este é o pré-requisito daquele!

Com estes cuidados em mente, o apóstolo do amor coloca sobre os ombros de ambos ─ profetas e audiência ─, a responsabilidade de serem coesos quanto à fé que afirmam ter. Isto é tão real, que os testes se aplicam aos dois grupos: “Nisto conhecereis” (v.2) (a prova para os que dizem estar sendo usados pelo Espírito de Deus) e “nisto conhecemos” (v.6) (para os que ouvem). Este zelo e cuidado consigo mesmo, antes de ser um sinal de incredulidade, é prova de maturidade espiritual. Já o reconhecimento de que Jesus Cristo veio em carne não é simplesmente uma questão de identidade, mas uma confissão. Em outras palavras, significa honrar e ter compromisso em se identificar de maneira coerente com a postura e o perfil de Jesus Cristo, enquanto modelo de ser humano perfeito. Se, conforme encontramos em Efésios 4.11 a 16, este é o objetivo do ministério ─ inclusive os de ensino e profético ─, é perfeitamente lógico que qualquer pessoa que se diz tomada pelo Espírito de Deus, não unicamente reconhecerá que Jesus, mesmo sendo Deus, veio em “carne”, mas que, como filhos de Deus e participantes de sua natureza divina, devemos e podemos perseguir este modelo ideal para nossas vidas. Este, inclusive, é o propósito do seu e do meu ministério.

Assim, a postura de um líder verdadeiramente chamado por Deus, é responsável, prudente, ética, bíblica e deve ser como a do apóstolo Paulo: “Mas ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado! Como já dissemos, agora repito: Se alguém lhes anuncia um evangelho diferente daquele que já receberam, que seja amaldiçoado! Acaso busco eu agora a aprovação dos homens? Se eu ainda estivesse procurando agradar a homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1.8-10, NVI). Alguém que possui interesses próprios que, por definição, não correspondem com os do Reino, jamais dirá isto, pois é uma conduta autodestrutiva. Contrariamente, os falsos profetas sempre querem arrogar uma espiritualidade acima da média para tentar justificar sua conduta despótica, arrogância e megalomania.

A Obra de Jesus no Calvário é uma concessão divina para toda a humanidade, e seu perdão não pode ser transformado em franquia denominacional


Outro fator que não deve escapar desta análise é o conhecimento sobre Jesus nos redimir e perdoar. Inicialmente é bom entender que esta certeza não é um estímulo à desculpa de que é possível pecar, mas uma advertência com a finalidade de se fugir do ato transgressor. Ao mesmo tempo em que esse saber aponta para a necessidade inadiável de se evitar o pecado, também é um sinal de que não se pode ser demasiadamente severo consigo mesmo, pois isso cria barreiras à restauração, no caso de um eventual fracasso. Ser indulgentemente generoso consigo é, por outro lado, uma postura inadmissível, pois banaliza o perdão, tornando-o meramente um casuísmo para a prática desenfreada dos desejos alimentados pela concupiscência e a carnalidade.

O apóstolo do amor inicia o capítulo dois de maneira negativa: “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo para que não pequeis”. É preciso trabalhar bem esta questão a fim de prevenir a membresia quanto aos efeitos deletérios do pecado, pois, além do rompimento na relação com o Senhor, há sempre seqüelas e conseqüências que seguem-se o ato da transgressão, proporcionando problemas que, não raras vezes, arrastam-se por toda a existência terrena (vide, por exemplo, o caso do paralítico do tanque de Betesda, narrado pelo próprio João em seu Evangelho, capítulo 5, versículos 1 a 15).

Mas o apóstolo não pára na possibilidade ideal (que é “não pecar”) ele avança seu argumento, inspirado pelo Espírito Santo, e apresenta, ainda no versículo primeiro do capítulo dois, o caminho para aqueles que sucumbem diante da tentação, e diz: “e, se alguém pecar, temos um Advogado [ou “chamado ao lado de” ou “para estar ao lado de”] para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo”. Esse recurso expiatório, é para aqueles que, mesmo depois de serem alertados contra o perigo do pecado (lembre-se que este é o propósito da epístola), acabaram caindo no engano do maligno. É relevante o fato de João chamar Jesus Cristo de “o Justo”, pois demonstra que somente alguém com esta qualificação pode chegar diante de Deus para defender a causa de um culpado.

No versículo dois, o apóstolo do amor afirma que Jesus “é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo”. Propiciação aqui, fala de Jesus como sendo “a vítima de expiação” pelos nossos pecados. Isso significa que o Senhor, através de sua morte, é o meio pessoal através do qual Deus mostra misericórdia à humanidade que confessa o nome de Jesus Cristo e o reconhece como Salvador. Neste mesmo texto, João demonstra a aplicabilidade salvífica universal e abrangente do sacrifício do Filho de Deus. O apóstolo desmonta qualquer possibilidade de pensarmos em um sacrifício limitado (somente para “os pré-eleitos”). Ninguém está excluído do âmbito da misericórdia de Deus, porém a eficácia individual do sacrifício (“a propiciação”) é tornada concreta apenas aos que crêem.

Assim, nenhuma igreja, denominação, segmento religioso ou qualquer outro grupo eclesiástico ou paraeclesiástico pode arrogar-se detentor do perdão ou favor divino. Ele é uma concessão divina, uma dádiva do Eterno e, portanto, não pode ser transformado em oportunidade ou exclusivismo, como se igrejas fossem franquias denominacionais autorizadas a vender bênçãos. É um direito extensivo a toda a humanidade. Isto é Evangelho, as Boas Novas de Deus para a humanidade. Homens comprometidos com o Senhor pregam o Evangelho de Jesus Cristo, mas não empreendem eventos de “vale-tudo da fé” que possuem o claro propósito de expandir o seu reino pessoal e particular. Não usam a mídia de maneira irresponsável para apresentar Jesus Cristo com finalidades econômicas.

A mercadologia da fé é um subproduto do cristianismo

É uma lástima que em tudo o que os homens colocam a sua mão, transforme-se em algo horrível, manipulador, ruim. Por isso, não temo em afirmar que a mercadologia da fé, representada através da multiplicidade de igrejas, é um subproduto do cristianismo. Mas este fato não diminui em nada a importância do Evangelho, a fé em Deus, ou a alegria da salvação.

Recentemente disse a um grupo de alunos meus, que existem, para tudo, ao menos três formas de ver as coisas: a) a maneira como nós as vemos; b) a forma como alguém as apresenta para nós; e c) a maneira como elas realmente são. Simplificando, é possível entender que a fé não pode ser responsabilizada pelo que fazem em nome dela. As igrejas que são regidas pelas leis consumistas do mercado e exploram as pessoas, não podem servir de desculpas para a extinção de todas ou para a acusação indevida de que o cristianismo é uma fuga intelectual ou muleta psicológica. O fato de alguns transformarem suas igrejas em verdadeiras “loterias da fé”, onde pessoas são desafiadas e coagidas a apostar suas economias, não significa que foi para isso que Jesus morreu.


Não se engane. A mídia tupiniquim e muitos outros setores de nossa nação dar-se-ão por contentes quando nossos templos forem fechados e se transformarem em espaços de apresentações promíscuas. A exemplo do que está acontecendo no Canadá, mais precisamente em Berkeley, Toronto, onde um ex-templo metodista, será palco (no próximo dia 24 deste mês) da entrega do Prêmio do Pornô Feminista.